terça-feira, 9 de julho de 2013

Tran - Vranje

De manhã o Vasco mete mais conversa. Trabalha para patrões portugueses em Paris e diz que são bons pedreiros… metem uma casa de pé em dois meses! Oferece-me uma garrafa de aguardente caseira feita pelos pais! Depois de arrumar tudo, leva-me até ao museu da cerâmica, outrora a principal actividade económica da aldeia. Já está mais à vontade, por isso diz-me que quando me viu a chegar, na véspera, pensou que eu fosse um Roma a pedir esmola! Solto uma gargalhada enorme e o Vasco também sorri, embaraçado! No museu os vasos e artefactos são lindíssimos e há também um centro de ensino onde todos os anos, estudantes vêm aprender as técnicas utilizadas. Fico especialmente impressionado quando o Vasco me mostra o antigo sistema de canalização da água utilizado pelos habitantes da aldeia, com tubos de cerâmica com 45cm de comprimento cada. Todas as pessoas eram obrigadas a canalizar a sua água desde a montanha até a casa utilizando estes objectos! 


Em frente ao museu está o vizinho do Vasco a apanhar cerejas. Deita uma tranca da cerejeira abaixo para eu tirar as cerejas que quiser. O Vasco fala-me ainda da vida em Paris, que é uma selva! Imagino como possa uma pessoa nascida aqui habituar-se ao corrupio de uma grande cidade. Não admira que os seus dias de férias aqui sejam passados sentados numa cadeira no alpendre de casa, a contemplar a paisagem. Conta-me também que o médico Stamen Grigorov, que descobriu uma das bactérias utilizadas no fabrico do iogurte (Lactobacillus delbrueckii subsp. Bulgaricus), em 1905, era de Tran, onde hoje existe um museu do iogurte. Mas hoje é Segunda-feira, o museu está fechado… vai ter de ficar para outra altura. 


Despedimo-nos e ando 6 km para trás para ver a garganta do rio Erma. Um trilho por entra a vegetação conduz a uma ponte artesanal de madeira, de onde pode observar a garganta que aperta o rio neste local e o faz correr velozmente por entre as rochas . Tem um túnel escavado na rocha, que inicia um trilho pelo canhão mas eu tenho de continuar viagem, por isso volto para Tran, deixo a  bike na polícia e faço compras para os próximos dias. Enquanto almoço no jardim localizado no centro da vila, um grupo de crianças aproxima-se timidamente. Comunicamos por gestos e quando digo as palavras mágicas (Portugal, futebol e Cristiano Ronaldo) todos soltam um "Yeahhhhhh". Um deles bate com a mão no peito sem parar e diz "Cristiano ronaldo Fan!!!"



A fronteira da Sérvia afinal ficava mais próxima do que aquilo que eu imaginava. Depois da fronteira há uma área de 10 km onde só vejo uma casa na beira da estrada. Para chegar ao lago onde vou ficar tenho uma subida longa mas quase sempre à sombra. O parque de campismo do lago tem uma localização brutal mas está abandonado. Parece que “abriu” neste dia e andam a cortar a erva e a arranjar a parte eléctrica. Não há qualquer recepção, por isso presumo que não se pague. Fico perto de uma roulotte, com vista para o lago.




No dia seguinte,  começo a pedalar numa descida que dura quase uma hora, acompanhando a floresta até chegar à cidade mais próxima. Lá tento trocar Levs por dinars mas nenhum banco nem casa de câmbio aceita. Aproveito para almoçar numa padaria e comprar fruta. 


Meto-me a caminho de Vranje, onde chego pelas 3 e tal da tarde. Procuro um parque de campismo que tinha visto na net. Ainda me engano, tenho de pedir direcções numa bomba de gasolina e passados 10 minutos estou lá. Tem uma piscina enorme e um relvado super bem cuidado para acampar. Sou bem recebido pelo dono que me oferece uma cerveja. Diz que não tem wifi mas pode emprestar-me a pen com net. No bar estão uns amigos dele e a conversa  vai parar aos jogadores sérvios que o Benfica contratou e àqueles que já jogaram em Portugal. Antes de fazer o jantar ainda tenho tempo de dar um mergulho na piscina, um "luxo" pouco habitual nesta viagem!



segunda-feira, 8 de julho de 2013

Sofia - Tran

O plano inicial para os primeiros dias de pedal era seguir para Sul e entrar na Macedónia pela fronteira Este, mas a Iva começou a falar-me de um canyon e de um lago na zona da fronteira com a Sérvia. Decido que vou por aí. A distância para Skopje é a mesma e eu já fiz parte da estrada que segue para Sul, quando apanhei o autocarro para Rila. Vou às compras, preparo tudo e despeço-me da Iva. Vou ter saudades deste sítio. É sempre um sentimento estranho pensar quando voltarei a ver estas pessoas. A saída da cidade é um caos… 2 faixas de cada lado, sem espaço para a bike.  Carroças, Ferraris, camiões, motas, pessoas… tudo anda ali no meio. Depois de um pequeno engano já estou na estrada nacional para Tran, a vila que fica a 15 km da fronteira com a Sérvia. Está um calor infernal e as pernas ainda não estão habituadas ao esforço. Cada vez o trânsito vai diminuindo mais e dando lugar à pacatez das aldeias. Paro na sombra duma paragem de autocarros para comer. 
   



As pessoas cumprimentam-me, meio a medo. Depois de uma subida longa, o céu começa a ficar cinzento e quando chego ao topo vislumbro ao longe trovoadas por todo o lado. Ainda não são 4 da tarde, chego a Bresnik e há festa na cidade. Depois de hesitar, decido meter pelo meio da multidão. Há bancas de todos os tipos, com roupa, fruta, utensílios agrícolas e farturas. Começa a chuviscar e a trovejar. Já não vou ter tempo de sair daqui para ir procurar um local para acampar, por isso tento encontrar na saída da cidade algum alojamento. Não há! Mas existe o quartel dos bombeiros. Estão 2 bombeiros à porta e meto conversa. Não falam inglês mas por gestos lá explico que quero arranjar um sítio para meter a tenda. Perguntam-me se tenho dinheiro fazendo um gesto com a mão e apontam para um hotel com aspecto luxuoso no topo da colina que abraça a cidade. “Não amigos! Não tenho muito”. Ainda tento um “choradinho” e pergunto se dá para acampar por ali, no relvado ao lado do quartel. Nada feito “Fire here”. “Ok, já percebi que é o quartel, paciência…”. Dizem-me para tentar na polícia e é o que faço. No meio da rua, agora quase deserta de pessoas que fogem da chuva, vejo um carro da polícia. Paro e pergunto por um sítio para meter a tenda. Um deles sai do carro e faz sinal para o seguir. Vai à esquadra buscar a chave do jipe da polícia e eu vou a atrás dele na bike. Paramos numa bomba de gasolina à entrada da cidade. O polícia sai do jipe e dirige-se aos funcionários, depois indica-me o relvado por detrás da casa que serve de loja. É aqui que vou dormir, seguro porque esta está aberta 24h. Quando estou a acordar de uma sesta de 3 horas sinto umas pancadas na tenda! Saio e vejo o funcionário a chamar-me. Está um carro avariado a ser reparado. Sou levado até uma senhora que por ali está. É mulher do mecânico que tenta reparar a avaria, vive a 50 metros dali e quer falar comigo. É simpática e conversamos um bocado, depois apresenta-me ao marido, pergunta-me se estou bem, se preciso de alguma coisa, se tenho comida e que se quiser ou tiver frio posso dormir dentro da loja da bomba, que sempre é mais quente. Não quero incomodar, por isso recuso gentilmente. Tento meter o fogão de campismo a funcionar pela primeira vez mas um problema no adaptador da botija, gasta-a em menos de um minuto. Lá se foi a comida quente até encontrar um fogão novo. Quando rodam o turno, oiço os funcionários dizer “Politzia!”, ou seja, “aquele gajo está ali porque foi a polícia que mandou”.





No dia seguinte acordo e ainda chove, já lá vão 16 horas seguidas. Vou ter de continuar por isso equipo-me para tal, só falta algo para os pés por isso peço dois sacos de plástico à funcionária do novo turno, que ainda me oferece um café. Anda-se devagar com a chuva, entre uma paisagem que começa cada vez mais a ficar montanhosa e bela! Passo por pessoas que caminham na beira da estrada sem qualquer protecção para a chuva. Uma delas senta-se ao meu lado quando estou sentado numa velha paragem de autocarro para comer algo. É uma velhota sem dentes! Fala e ri muito. Eu só rio e digo “Sorry, english!” A estrada vai empinando cada vez mais, tentando vencer o desnível que as montanhas apresentam. 


Quando estou a 2 km de Tran, no topo da última subida, sou mandado parar por uma brigada da polícia de fronteira búlgara. Não falam Inglês. Por sinais lá conseguimos comunicar. Pedem-me o passaporte. Está um ambiente estranho na conversa e começo a preparar-me para me pedirem um “donativo”, imaginando já mil desculpas para me safar, que estou de bicicleta, que não tenho dinheiro! Um deles, de camisa aberta, pede-me o passaporte. Vê o nome e confere se sou eu na foto. Outro liga para um colega que, em inglês, manda perguntar como vim parar aqui. Digo que vou para a Itália, e que apanhei um avião de Lisboa para Sófia. O de camisa aberta pergunta-me o nome, eu repondo, sorriem e mandam-me seguir. Continua a chover, a tenda está encharcada dentro do saco e acampar hoje só mesmo em último caso! Na praça central de Tran fica um hotel 3 estrelas! Sento-me na esplanada e peço uma cola. É a forma que tenho de aceder ao WIFI do hotel. Procuro um alojamento nas redondezas. Aqui pedem um balúrdio, para o meu orçamento, e eu prefiro dar o meu dinheiro a alojamentos locais, suportando directamente a economia local. Vejo que a 6 km daqui há uma casa que aluga um dos andares a turistas e, melhor, tem cozinha toda equipada. 


Reservo através da internet e 2 horas depois estou lá. Busintsi, o nome da aldeia onde fica o alojamento, fica numa vertente montanhosa e é o final da estrada. Sigo as indicações de uma placa de madeira e deixo o alcatrão, que cobre só a rua principal da aldeia. Esquerda, direita, chuva, lama e estou em frente ao portão da casa. Bato com força. À porta vem um rapaz de meia-idade. Tento dizer que fiz uma reserva à 2 horas atrás para uma noite. Manda-me entrar! Chama-se vasco, é o filho dos donos da casa e está de férias do trabalho como pedreiro em Paris. Apresentações feitas, últimas limpezas e lareira a funcionar! Está preparado um fim de tarde de descanso, a ver as montanhas a partir da janela do quarto e a ouvir a chuva lá fora.


domingo, 7 de julho de 2013

Nas montanhas de Rila - último dia

Na manhã seguinte acordo com o barulho dos trabalhadores que ocupam os quartos ao lado, levanto-me como uma mola e vou até à janela para verificar o tempo. Chiça! Ainda está tudo encoberto…são 6:20 e decido dormir mais um pouco. Às 8h o despertador toca. Espreito pela cortina…vejo o azul do céu. Metade deste encontra-se coberto de nuvens negras, a outra metade está limpa, mas não consigo descobrir em que direcção avançam as nuvens. Tomo o pequeno-almoço à pressa, arrumo a mochila e saio. Afinal as nuvens estão a ir embora. Boa! Agora só falta chegar lá acima.

Vou até ao final da vila para tentar apanhar boleia. Uma das coisas que já aprendi com a pouca experiência que tenho é que num local mais isolado as pessoas ficam maiss sensibilizadas para me darem uma boleia, no centro de uma localidade há demasiada "informação" para os olhos de um condutor. Estico o braço e o polegar. Passam 3 carros com turistas e não me ligam nenhuma. A seguir vejo um jipe Lada a aproximar-se com um logótipo na porta. Estico novamente o braço e este encosta. São dois velhotes simpáticos, o que conduz fala um inglês quase perfeito e apresenta uma calma típica de quem já viveu muito. Apresentações feitas e a primeira coisa que me perguntam é se sou do Sporting! “Ahah...não, sou do rival Benfica!” Imagino que me perguntem isto por causas das glórias do futebol búlgaro da década de 90 que passaram pelo Sporting, como Balakov, Irodanov, Cherbakov, entre outros que agora não me lembro! O jipe vai subindo pela estrada que serpenteia montanha acima. A conversa decorre entre o que faço na vida e o que me traz aqui. A certa altura o jipe abranda e o condutor diz-me “José, look right!” À minha direita está um precipício enorme de onde se vê um vale maior ainda! É uma paisagem deslumbrante! Logo de seguida: “José, now look left” e o topo das montanhas mostra-se em todo o seu esplendor. Sinto que estou num tour guiado, quando só pedi uma boleia. O jipe pára em Panichishte, o resort de montanha que fica a 6 km da telacadeira. Qual não é o meu espanto quando vejo que o edifício que os meus “guias” vão abrir é o centro de recepção de visitantes do parque… e eles são os funcionários! Daqui até lá acima ainda são 6 km (uma hora a pé, diz-me um deles), mas o caminho é feito pelo alcatrão, coisa que não me seduz muito.

Depois de me despedir meto-me a caminho e 200 metros depois de me fazer à estrada oiço um barulho de um motor. Estico o braço automaticamente. Estou numa curva, “Chiça, é um táxi”, penso quando vejo o carro abrandar. Já traz um passageiro, por isso eu vou ser um “extra”. Abro a porta e pergunto quanto quer para me levar naqueles 6 km: “2 Lev (1€)”, responde! Nem pestanejo. Salto lá para dentro e 7 minutos depois estou à entrada da telecadeira, que tem a extensão de 4 Km e vence um desnível de 600m, para deixar os visitantes a cerca de 2 km do primeiro lago. Quando estou a comprar o bilhete pára atrás de mim uma senhora a arfar incessantemente. “E ainda só fez o trajecto do carro até aqui, que são 50 metros”, penso. Pergunto-me também se esta senhora tem a noção que para ver os lagos vai ter de caminhar 4 a 5 horas e subir, sem a ajuda de nenhuma telecadeira, cerca de 350m. 


Os sete lagos são assim designados não só pelo número mas também pela proximidade que todos eles apresentam. Têm ainda uma particularidade…são todos em sequência, em que cada um está um pouco mais abaixo daquele que o antecede, formando assim uma espécie de socalco ou escadaria, sendo que o que fica mais alto, alimenta de água todos os outros. As próximas horas são de contemplação, a tentar absorver tudo aquilo que está ao alcance da minha vista. 


Na subida desde o lago mais alto para o ponto de onde se conseguem ver todos os 7, paro ao pé de 3 pessoas que, mais atrás ou mais à frente, têm feito o mesmo trajecto que eu. Metem conversa. Subimos os últimos metros juntos. Quando chegamos ao topo o homem do grupo pára, mete as mãos nas ancas, faz uma última inspiração e grita “José! Very nice place!” Eu sorrio e respondo “Yes. Very beautiful!”.





Não me fico pelos 7 lagos. Ainda tenho tempo, sinto-me com uma leveza desconcertante (uma amiga minha, habituada a caminhar nas montanhas bem me disse, um dia, que quando está a fazer trekking quase perde a sensação do peso do corpo) e dou um salto até à face oposta da montanha. A vista ainda é mais impressionante, com o azul-turquesa de outros lagos que se vislumbram no horizonte, o cinzento dos picos de granito que apontam para o céu, o branco da neve que subsiste teimosamente e o verde da erva que desponta um pouco por todo o lado. Tenho para mim que este é um dos locais mais bonitos onde já estive, e também o mais alto. Sorrio com essa insignificância…sentir-me “alto” a 2500 metros de altitude. É tudo muito relativo, eu sei! Viajei muito pouco até agora e não conheço quase nada do mundo. Mas de entre todos os sítios onde já estive este está no top 3, de certeza. 



Está na hora de regressar porque a telecadeira fecha às 16:30. Agora tenho de tentar apanhar boleia para baixo, porque o último autocarro para Sofia é às 20h e eu ainda tenho 40 km a separar-me de Dupnitsa, o local de onde ele parte. Depois de descer da telecadeira, começo a caminhar estrada abaixo. Ao 3º carro estendo o braço. Não posso acreditar, é outro funcionário do parque. Melhor ainda…vai para Dupnitsa e pode deixar-me na estação! Meia hora depois já lá estou e antes de subir para o autocarro ainda tenho tempo de mandar uma cabeçada num ferro saído de uma parede, no qual não reparei (terá sido este o Karma por ter ido contra a minha própria convicção ao utilizar a porcaria da telecadeira?). Se já estava nas nuvens com o dia que estava a ter, agora fiquei a ver estrelas! Fico com uma dor de cabeça que irá durar 2 dias. Regresso a Sofia com a alma limpa e cheia de imagens maravilhosas.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Nas montanhas de Rila - 2º dia

Durante a noite a trovoada e a chuva não deram tréguas… e continua! Desço para o pequeno-almoço. Oferecem-me queijo caseiro de 3 variedades diferentes. No chalet estão 13 pessoas: eu, 4 casais (2 deles com um guia) e as 5 pessoas que compõem a família que gere o chalet. Esta última vem em Maio para abrir a casa e só daqui sai em Outubro. Faz-me lembrar a sazonalidade dos pescadores nas Berlengas. A maior parte do grupo está preocupado… vai descer para o local onde deixou os carros e não pára de chover. Começo a equacionar o que fazer. Agora já não é só a chuva, mas também o nevoeiro que envolve toda a montanha. São 6 horas de caminhada até ao chalet onde tinha planeado passar a noite de hoje, mas com este tempo vão ser muitas mais, não vou disfrutar de vista nenhuma, vou lá chegar encharcado, estou sozinho e isto é uma montanha… aqui quem dita as regras é a natureza. Resigno-me. Não vale a pena! Vou aproveitar e descer com o grupo. Somos 10 e cada um equipa-se da forma que pode. Sacos de plástico na cabeça, nos sapatos…vale tudo! Menos ficar encharcado.


Descemos em fila. Os mais velhos ajudam as senhoras nas zonas mais difíceis. O trilho está transformado num autêntico rio e temos de usar as pedras para apoiar quase sempre os pés, por isso todos estão com atenção. O silêncio é quebrado por uma piada que surge de tempos a tempos. Rimos todos, eu por arrasto e solidariedade, porque não percebo patavina do que dizem. Fico para trás para tirar uma foto do grupo e um dos homens pede a máquina para me tirar uma foto. Responde com um “obrigado” limpinho. “Fala português? Já podia ter dito!” Respondo eu em tom de brincadeira. Diz-me que esteve 3 anos a trabalhar como mecânico de autocarros, perto de Lisboa. Entretanto vou pensando num plano B. Tinha planeado 3 dias a caminhar e não me apetece voltar já para Sofia, logo agora que estava a adorar! Duas horas depois chegamos ao local onde ficaram os carros.


Despeço-me de todos mas o senhor do “obrigado” diz para esperar, que tem lugar para mim no carro e que me pode deixar no mosteiro, que fica a caminho. Óptimo! Poupa-me 3 horas de caminhada pela estrada à chuva e eu já tenho os pés ensopados! Já estamos dentro do carro à espera que este acabe de aquecer com o capô levantado e o motor à chuva quando me chamam. Uma carrinha, que eu pensava estar abandonada, é o transporte de um dos membros da família que gere o chalet e que desceu junto com o grupo e não pega, por isso há que empurrar. Problemas mecânicos resolvidos e iniciamos viagem. A mulher do “português” oferece-me tudo o que vai consumindo: pastilhas, bolachas e cigarros. Só recuso os últimos. 


Despedimo-nos efusivamente à entrada do mosteiro. Aproveito para dar uma última volta pelo local. Qual não é o meu espanto quando encontro o Jae! Passou cá a noite. Pergunto-lhe se gostou. Responde que foi espectacular. Dormiu numa cela dos monges destinadas a peregrinos a troco de 15 euros. São duas da tarde! Assim ainda consigo apanhar o único transporte que sai do mosteiro, o autocarro que regressa a Sófia às 3 da tarde e assim também já sei o que fazer! Vou tentar chegar a Sapareva Banya, a 70 km daqui, que é a vila situada no sopé da vertente norte do parque Nacional de Rila e que serve de entrada para zona dos 7 lagos. Se calhar vou mesmo aos sete lagos! Só tenho 4 coisas que ainda não sei como fazer. Primeiro: Tenho de arranjar transporte para Sapareva Banya e este autocarro só passa numa cidade que fica 20 km a Oeste. Segundo: se quero visitar os sete lagos num dia tenho de utilizar a telecadeira. Explico: No meu ponto de vista esta é uma construção que permite a mais gente visitar os sete lagos. Até aqui tudo bem! Em vez de 2 horas de caminhada para lá chegar, a telecadeira faz o mesmo em 20 minutos. O problema é a quantidade de gente e, consequentemente de lixo, barulho, etc. Já para não falar do impacto na natureza da construção do dito. Esta é a mais difícil de decidir, mas depois penso que se não for, a telecadeira vai lá continuar à mesma! Lá terei eu de ir contra os meus princípios. Terceiro: de Sapareva Banya ao teleférico (que é o fim da estrada) são 17 km e não há transportes. Quarto e mais importante: não sei se o tempo amanhã permite subir a montanha. É um tiro no escuro, mas decido arriscar.


Desço em Dupnitsa, a tal cidade a 20 km de Sapareva. Vou até à estação dos autocarros e em 30 segundos fico a saber que há autocarros todas as meias-horas e, melhor, também os horários para regressar amanhã a Sofia. Passam 15 minutos e já estou metido no autocarro, que demora 20 a fazer o trajecto. Em Sapareva não tenho dificuldade em arranjar sítio onde ficar, há painéis com oferta de alojamento por toda a parte. Olho para a montanha, tentando vislumbrar alguma coisa, mas as nuvens baixas não me permitem ver mais do que 100 metros para cima! Amanhã logo se vê…


terça-feira, 2 de julho de 2013

Nas montanhas de Rila - 1º dia

Às 7h30 estou de pé para ir às compras antes de apanhar o autocarro para o mosteiro de Rila, às 10:20. Como a estação de onde este parte fica numa das saídas da cidade, ainda tenho que apanhar o eléctrico até lá. Durante a viagem, que dura cerca de 20 minutos, vejo edifícios em ruinas, prédios que não consigo vislumbrar se estão ou não habitados, cavalos e carroças que fluem no meio do trânsito. A estação é um pequeno terreiro esburacado, onde algumas pessoas esperam os miniautocarros (com capacidade para 20 passageiros) que fazem a maioria das ligações rodoviárias na Bulgária. O meu plano para os próximos 3 dias é o seguinte: visitar o mosteiro e a seguir entrar nos trilhos que compõem o parque natural do mosteiro de Rila, caminhando até à Ribni Ezera, o chalet de montanha mais próximo, onde vou passar a noite. No dia seguinte caminhar até à Makedonia Ezera, através de uma crista de montanha que, pelo que sei, oferece vistas de cortar a respiração. No 3º dia, voltar ao mosteiro de Rila pela vertente Sul da montanha e, finalmente, apanhar o autocarro de volta a Sofia.  Quando já estou dentro do autocarro vejo um jovem asiático a correr de um lado para o outro. Percebo que procura este autocarro. Depois de entrar, meio esbaforido, senta-se ao meu lado. Apresentamo-nos. Chama-se Jae, é Sul-coreano e está a dar uma volta ao mundo durante 9 meses. Já passou pela Tailândia, Índia, Turquia e Grécia. Durante a viagem vamos trocando impressões. Diz-me que toda a gente lhe fala muito bem de Portugal e que gostava de lá ir depois de voltar de África, o continente que vai visitar a seguir. O tempo está cinzento e de quando em vez, vemos na beira da estrada bancas com vendas ambulantes de artigos militares e fatos de pilotos de automóvel! As pessoas trabalham nos campos recorrendo a carroças de 4 rodas de madeira, arados puxados por cavalos e foices que fazem as vezes das máquinas de ceifar. Na Vila de Rila, a 20 Km do mosteiro, paramos 20 minutos… “Então agora que já só faltam 20 km é que paramos 20 minutos???” 


Continuamos… a estrada vai subindo pelo fundo de um vale encaixado coberto de árvores que apresentam vários tons de verde e quase não deixam passar a luz. Ao chegarmos, uma das pessoas que vinha autocarro pede se lhe posso tirar uma foto à entrada do mosteiro. “Claro que sim!” Chama-se Julia e é Ucraniana, de Odessa e está a viajar pela Bulgária. O Jae aproveita e pede à Julia que também lhe tire uma foto. Qual não é o meu espanto, quando o vejo a fazer poses de “dragonball”, com os braços esticados num sentido, depois com as mãos juntas como se estivesse a mandar bolas de fogo! Espectáculo!!! Damos uma volta pelo mosteiro ortodoxo, hoje conhecido como a Jerusalém búlgara. É o local mais visitado do país, mas mesmo assim, não andam muitos turistas por aqui. 

Temos fome, por isso procuramos um restaurante nas imediações. A Julia queixa-se da dificuldade de obter um visto para visitar um qualquer país da Europa e queixa-se também da inércia dos jovens na Ucrânia, mesmo os que têm possibilidade, não viajam muito, preferem passar o tempo no sofá a fazer coisas mais “interessantes,” como ver televisão! Digo-lhe que no meu país é mais ou menos parecido. Fica espantada! “Então não são vocês que são conhecidos por serem aventureiros por causa da época dos descobrimentos?” Respondo-lhe que não, que isso é um mito! O Jae diz que no país dele um cidadão normal só tem direito a 2 semanas de férias por ano, no máximo 3 - “To much work, the people get crazy”, finaliza.

São 14h30, eu estou a adorar a companhia, mas tenho de me despedir. O chalé de montanha fica a cerca de 5 horas de caminho e, apesar de só anoitecer às 22h eu não quero correr riscos porque sempre são 1200 metros de desnível. O trilho que inicia mesmo nas traseiras do mosteiro, segue pela estrada que acompanha o fundo do vale. As primeiras 2 horas de caminhada são monótonas, não se vê ninguém e andar pelo alcatrão é aborrecido. Só quando este acaba e se transforma num estradão de montanha é que a paisagem se deixa finalmente mostrar. Afinal continuo no mesmo vale, mas agora numa cota muito superior. Vertentes de rocha abruptas precipitam-se 400 metros desde o topo da montanha até ao local onde me encontro. Começa a chover… pelas minhas contas ainda faltam cerca de 2 horas de caminhada, por isso apresso o passo, até que chego ao final do estradão. A partir daqui, de onde já se vislumbra neve nos picos mais altos, o caminho até ao chalet só se faz por um trilho.

Cinco minutos depois vejo o que me parecem ser 2 pessoas, mais à frente no trilho. Afinal são 4, 3 homens e uma mulher. Um deles leva a mulher por uma mão e no braço oposto, uma carabina. Os outros 2 levam uma égua cada, sendo que uma delas vai carregada com os mantimentos que abastecem o chalet. Sigo atrás do grupo em silêncio, até que o casal fica para trás. Até chegar ao destino, o vale por onde caminhamos inflecte para a direita e deixa antever ao longe, a casa, que fica entre dois lagos, numa espécie de anfiteatro. 

Quando chegamos a dona, uma velhota simpática, diz para me dirigir à sala que fica á direita da entrada. Fala comigo em búlgaro e ri-se, como se eu percebesse tudo perfeitamente! Eu também me rio com a situação. O casal que se encontra a comer repara no meu embaraço e faz a ponte na comunicação. Peço uma sopa e dois pedaços de carne, acompanhados por um chá. A seguir a mesma velhota traz-me os lençóis e leva-me ao primeiro andar, a uma camarata com 5 beliches, dois deles já ocupados pelo casal que se encontra lá em baixo.

Saio e vou até ao lago mais distante da cabana. As nuvens começam a desaparecer e o sol ilumina pela última vez a colina, antes de se esconder. Só se houve o som da água, que escorre de todos os lados. Um denso tapete de erva circunda o lago. Deito-me, abro os braços, fecho olhos, respiro fundo e sorrio. Estou feliz! Penso na sorte que tenho, por poder estar aqui. Penso também naqueles que queriam ter só algo de tão básico como uma refeição para comer e não podem. É um pensamento estúpido, eu sei! Não posso viver a desgraça dos outros para os aliviar. Antes de me deitar no beliche que se afunda como se de uma cama de rede se tratasse ainda espreito pela janela que mostra a montanha recortada por um céu estrelado.