terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Ao fresco no calor de Mostar

Não sou muito adepto do ar condicionado, mas com o bafo que se faz sentir, mesmo à noite, um sono num local fresco sabe-me a ginjas. O quarto tem acesso directo ao terraço do hostel. Só preciso de meter um pé ao sol para perceber que com este calor só irei sair daqui ao final da tarde para visitar a cidade. Deixo-me ficar pela sombra do alpendre a actualizar o blogue, a ver a rota para os próximos dias, a ler um pouco acerca da história da cidade e a fazer a “limpeza da casa” – lavar a roupa e reorganizar a comida. Mostar, que faz parte da região da Herzegovina, uma das duas que constitui a Bósnia e Herzegovina, tem hoje em dia cerca de 115 mil habitantes, repartidos entre uma maioria croata e muçulmana, sendo que servos e jugoslavos completam a restante paleta demográfica desta cidade que é actualmente um dos principais destinos turísticos do país. A guerra provocada pela declaração da independência do país relativamente à Jugoslávia, fez com que Mostar fosse o principal palco de um conflito armado sangrento durante cerca de 3 anos, entre 1992 e 1995. De um lado os bósnios-croatas, do outro os bósnios sérvios, pelo meio milhares de civis mortos. Na net bastam alguns segundos de pesquisa para se observarem as cenas do costume…tiros, violência, pessoas inocentes mortas e desalojadas. Lembro-me do meu país e da dor que ainda persiste na maioria das famílias portuguesas por causa das consequências da guerra colonial e tento imaginar que marcas pode uma guerra tão recente ter deixado na vida das pessoas que passam ao meu lado na rua. A resposta não é difícil… a contrastar com a alegria dos mais jovens, certos idosos parecem carregar em si toda a brutalidade de um episódio tão recente. Alguns edifícios são ainda o espelho dessa brutalidade…marcas de tiros e granadas em alguns ainda habitados, sinais de bombas noutros completamente destruídos. No meio disto tudo um fluxo turístico intenso. Penso nisto tudo enquanto observo o “fluir” das pessoas pelas ruas, sentado em frente a uma das 6 mesquitas que subsistem hoje em dia. A maior atracção é a zona antiga, paralela ao rio e a Stari Most, a famosa ponte em arco, construída em meados do séc. XVI, destruída no dia 9 de Novembro de 1993 pelos bombardeamentos e reerguida com o alto patrocínio da UNESCO em 2004. Depois disso veio a classificação como património mundial. No meio desta massa de gente, tento imaginar como seria o movimento aqui à algumas dezenas de anos, por entre bancas, recantos e locais de oração. Observo a última luz do dia na margem do rio Neretva. Podia ser um cenário idílico não fosse o cheiro nauseabundo a esgoto que vem do rio, mas isso não parece suficiente para demover as pessoas que ali se encontram a tomar um banho refrescante. Eu prefiro o do chuveiro do hostel… Depois de um hamburger ao jantar, aproveito para fazer as compras para os próximos dois dias no supermercado da rua principal. 




É quando venho com os sacos pendurados nas mãos a trautear uma música, que alguém me chama. Viro-me… não acredito!!! O rapaz que conheci em Skopje e voltei a encontrar semanas mais tarde no Durmitor em Montenegro! O cenário repete-se: abraçamo-nos e damos gritos por tamanha coincidência. Falamos dos trajectos que aqui nos trouxe depois do último encontro, ele apresenta-me os amigos que o acompanham para uma investida nocturna aos bares da cidade e rimos durante mais uns minutos. Desta vez não me esqueço de tirar uma foto, mas reparo que a máquina não tem bateria.. Fica para a próxima! Agora já não nos despedimos com “até um dia” mas com um “até já”! Vou ainda a pensar nestas coincidências quando, ao entrar no quarto do hostel dou de caras com outra das pessoas que partilha o quarto - ao todos somos 6: um casal de australianos que anda a dar uma volta pela Europa e veio parar a Mostar depois de ter comprado o carro mais barato que viu quando passou por Londres, 3 italianos de mochila às costas a percorrer a Costa do Adriático e um português de bicicleta… É com um desses italianos que me cruzo. Depois de saber a minha nacionalidade diz-me que o seu escritor favorito é o Saramago e o livro de referência o “Memorial do Convento”. Digo-lhe que moro a 40 minutos do convento de Mafra e que é obrigatório ele lá ir quando visitar Portugal, acompanhado do livro claro. Diz-me também que se cruzou há uns dias atrás com dois ciclistas polacos meio avariados do capacete, que pedalavam de tronco nu e já tinham feito não sei quantos quilómetros… “Espera lá!” – penso eu. “São uns com alforges de tecido, um deles tem óculos, fisionomia oriental e têm que estar na Polónia daqui a pouco mais de uma semana?” - pergunto. “Esses mesmo! Também os conheces?”… não acredito! Num espaço de meia hora tanta coincidência junta! “Sim, cruzei-me com eles perto da fronteira de Montenegro com a Croácia, mas acabámos por não nos voltar a ver”. Deito-me a pensar nisto… Quantas variáveis diferentes são necessárias para que o destino me traga aqui e agora, a encontrar pessoas com as quais já me cruzei antes e, pior ainda, a cruzar-me com outras que por sua vez também conheceram as mesmas pessoas que eu. Basta sair de casa para perceber quão pequeno o mundo é.




quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Coácia-Bósnia-Croácia-Bósnia (Mostar)

Logo pela manhã, o pequeno-almoço é passado na companhia do casal francês. Contactos trocados, despedidas feitas e monto na bicicleta com destino a Mostar, na Bósnia. Mas para lá chegar ainda terei de passar 3 fronteiras. Explico: A Croácia e a Bósnia são países vizinhos, sendo que este último detém um trilho de costa com cerca de 10km, com a Croácia a Sul e a Norte. Isto significa que cerca de 5 km depois de começar a pedalar, tenho a fronteira com a Bósnia à minha frente e apenas 10 km após essa fronteira tenho outra novamente, desta feita para reentrar na Croácia. Há uma fila de carros gigante. Apetece-me passar à frente de toda a gente que está sentada confortavelmente no interior de cada veículo com o ar condicionado ligado, mas a boa educação manda-me aguardar pela minha vez. Quando finalmente chego a uma das cabines do posto fronteiriço, percebo o porquê de tanto demora… um dos funcionários deve ser recente e demora 5 vezes mais tempo a verificar os papéis, comparativamente com os seus colegas de trabalho. Depois desta trapalhada toda espera-me uma subida difícil, com muito calor à mistura, mas no topo a vista é recompensadora… um vale enorme, todo cultivado e aninhado entre as montanhas, apresenta uma paleta de verdes impressionante, com dezenas de canais a servirem de via de comunicação. Quando chego a Opuzen, a cidade que serve de entrada para esse vale lindíssimo, paro para fazer compras e abastecer o estômago. Volvidos 10 km estou novamente às portas do posto fronteiriço de Metkovic. O calor começa cada vez a mais a apertar. Despejo água pela cabeça, cerro os olhos e contínuo. As primeiras vilas e aldeias deixam antever uma diferença enorme, relativamente à turística costa croata. Aqui e ali vêm-se algumas marcas da guerra recente: pontes caídas, casas com marcas de balas, edifícios em ruínas… Todas estas marcas parecem também reflectir-se no rosto das pessoas mais velhas, que certamente sofreram na pele as consequências de um conflito que perdurou durante 3 anos e vitimou cerca de 200.000 civis. A estrada desenrola-se ao longo da margem esquerda do rio Neretva, que nasce nos Alpes dináricos, a cerca de 30 km de Sarajevo e é considerado um dos rios mais frios do mundo, pois as suas águas atingem no verão uma temperatura máxima de 8 graus. A sua particularidade reside também na sua cor verde-esmeralda única. Pedalo meio embriagado com esta cor única quando à minha frente surge Pocitelj, uma cidade amuralhada construída em 1383, hoje património integrante da lista da Unesco. Está demasiado calor para deixar a bicicleta de lado e fazer uma visita com mais tempo ao local. Acabo por escolher uma sombra para repor mais algumas calorias. Daqui até Mostar são cerca de 30 km lindíssimos, através de um Canyon salpicado aqui e ali por algumas entradas de grutas. À medida que avanço para o interior a temperatura é cada vez mais sufocante. Já com Mostar à vista sou obrigado a parar numa estação de serviço para meter a cabeça debaixo da água da torneira. As sobrancelhas queimam, só da deslocação do ar. Saberei mais tarde que os termómetros marcaram neste dia cerca de 42 graus. Quando entro finalmente na cidade sinto um alívio enorme. Uma das primeiras coisas que vejo é a famosa ponte, que dá ao centro histórico todo o seu encanto. Entre edifícios com marcas de balas, outros recuperados e alguns destruídos, ainda me perco à procura do Hostel, mas depois de algumas tentativas lá consigo dar com o local. A primeira coisa que faço assim que entro na camarata é pousar as bagagens e tomar um banho refrescante. Só volto a sair do quarto para comprar um Burek de queijo de cabra para o jantar e para sentir o pulso ao centro histórico.







terça-feira, 19 de novembro de 2013

Na costa croata

O dia amanhece com uma brisa que sopra de terra e que deixa finalmente que as águas da Croácia mostrem porque são mundialmente famosas. A estrada que liga o camping a Dubrovnik, o local onde pretendo ficar hoje, percorre a vertente da montanha que se despenha abruptamente nas águas transparentes do Adriático. A cidade é visível a vários quilómetros de distância, mas a sua imponência só é verdadeiramente perceptível quando atinjo o miradouro que deixa antever um cenário fantástico: a fortaleza de pedra com o seu casario no interior e no horizonte algumas das mais de 1000 ilhas que fazem parte da costa deste país. Está um calor tremendo e o trânsito não dá tréguas, obrigando sempre a uma atenção redobrada. Afinal esta é a principal estrada que liga o norte do mar Adriático até ao seu extremo sul. Quando entro no emaranhado de vivendas e pequenos prédios que compõem os arredores da antiga cidade, o trânsito e o movimento de pessoas intensifica-se ainda mais. Dou três voltas ao perímetro das muralhas, para ver se encontro um local seguro onde possa deixar a bicicleta e assim visitar descansado este local classificado pela Unesco. Ainda pergunto num parque de estacionamento subterrâneo se dá para deixar a bicicleta só por um par de horas. Nada feito! Lembro-me do posto da polícia, que fica a umas dezenas de metros dali. Ao chegar lá meto conversa com um guarda que sai para a ronda. Com aquela que deve ser a sua melhor educação manda-me ir procurar outro lado. Já estou nisto há quase duas horas e decido que já chega. Faço-me à estrada para percorrer os 7 km que me separam do hostel onde vou ficar, o alojamento mais barato que encontrei, visto que em Dubrovnik pediam 25€ por pessoa para ficar no parque de campismo. O hostel é gerido por um membro da claque mais antiga da Europa: a “Torcida” do Hajduc Split, fundada em 1950. A maioria das paragens de autocarro que ficam situadas entre a fronteira sul da Croácia e a cidade de Split estão pintadas com as cores e os emblemas do clube. Nunca tinha visto nada assim e falo com o dono acerca disso. A tarde é aproveitada a relaxar e a decidir o que fazer nos próximos dias… tanta confusão e trânsito estão a deixar-me cansado. Decido que amanhã bem cedinho voltar a Dubrovnik para visitar a cidade e nos dias seguintes vou virar para o interior e aproveitar para visitar Mostar, na Bósnia.






Não consigo acordar tão cedo como tinha planeado, mas às 9 já estou em Dubrovnik pronto para dar uma volta pela fortaleza que parece impenetrável. Centenas de turistas percorrem já as principais avenidas e ruelas da cidade. Apesar de toda esta massa de gente, certos locais parecem permanecer indiferentes à passagem do tempo. Num beco, uma pequena porta deixa antever uma barbearia antiga, com as suas paredes carregadas de lembranças e objectos. Na sombra das pracetas, grupos de reformados sentados em bancos de jardim discutem as peripécias da vida. As ruas principais estão transformadas num shopping de souvenirs intermináveis e as margens da pequena marina servem de palco para a venda de vários Tours turísticos. Passada pouco mais de uma hora, decido que é tempo de voltar à estrada. Passo pelo hostel para colocar as bagagens na bicicleta e sigo viagem. Cerca de 10km mais à frente, o calor e um cruzamento com a indicação de praia fazem-me virar á esquerda em direcção ao mar. Acabo numa pequena baía com meia dúzia de pessoas e uma água fantástica, local perfeito para o almoço, um banho e uma sesta retemperadora. De volta à estrada, tudo na mesma: a montanha do lado direito, o mar do esquerdo. A certa altura começa a levantar-se um vento frontal fortíssimo. Estou cansado, sem água e não avisto nenhuma aldeia nas redondezas. Decido que vou parar para pernoitar no próximo local onde encontrar água. Chego a uma baía interior onde se encontram dezenas de viveiros de ostras. Procuro nas barracas dos pescadores por alguém que me possa fornecer um pouco de água. Nada! Estão todas vazias. Ao fundo da baía avisto uma aldeia… é a minha tábua de salvação. Quando me preparo para meter pela estrada que me irá levar até lá reparo numa autocaravana estacionada numa pequena estrada de terra batida sem saída, mesmo á beira de água. Cá fora uma senhora prepara a mesa para o jantar. Aproximo-me timidamente e pergunto se me podem encher uma garrafa de água. É um casal de franceses e claro que me podem fornecer um pouco de água. Depois de uns minutos de conversa convidam-me para passar ali a noite. Monto a tenda perto da traseira da autocaravana e de seguida jantamos juntos. O que à pouco era um fim de tarde cansativo tornou-se num início de noite fantástico… Junto com umas fatias de salmão, partilhamos um “Bordéus” branco fresquinho, que os acompanha desde França, sobre um céu estrelado maravilhoso.







sexta-feira, 8 de novembro de 2013

De Montenegro à Croácia

Acordo às 8 com um calor enorme. Depois de um pequeno-almoço rápido pego na toalha, atravesso a estrada e dou um mergulho no mar pela primeira vez desde o último mês e meio. O sabor do sal sabe-me, pela primeira vez, a estranho, devido à rotina à qual o meu corpo se vem habitando nas últimas semanas – montanhas e águas límpidas e cristalinas dos lagos e rios. Quero descansar e aproveitar o final da tarde para visitar a antiga cidade de Kotor, hoje incluída na lista de património mundial da Unesco. O dia é passado numa rotina complicada: nadando até ficar cansado e deitado na toalha até ficar seco. Perto das 4 da tarde pego na bicicleta e percorro os cerca de 10 km que separam Stoliv, a aldeia onde se situa o camping, de Kotor. A estrada é estreita: de um lado as águas da baía, do outro as casas de pedra que permanecem indiferentes à passagem do tempo. Kotor foi outrora um importante centro artístico e comercial e é uma autêntica fortaleza de calcário. Desde o chão, às paredes das casas e muralhas que delimitam o perímetro da antiga vila, o branco da pedra só é interrompido, aqui e ali, por uma ou outra planta que espreita timidamente dos vasos colocados nas varandas ou pelas portadas verdes que quase todas as casas ostentam. Observo o cair da noite a partir do porto, onde um grupo de jovens ensaia uma coreografia sob a orientação de uma professora exigente. No caminho de regresso paro numa padaria de onde sai um cheiro maravilhoso. Estão a acabar de fazer bureks, que chatice! Compro ¼ de um e aproveito o espaço de um pequeno ancoradouro para jantar. O som da água nas pedras a lua e o céu estrelado compõem o resto do cenário de um início de noite fantástico.






Do camping até ao ferry que atravessa o pequeno canal que liga a baía de Kotor ao mar Adriático são apenas 4 km, por isso aproveito os primeiros raios de sol para ainda dar um mergulho antes de voltar à bicicleta. Sinto-me leve. No ferry, que não demora mais de cinco minutos a vencer a distância que separa as duas margens, as bicicletas não pagam. Está um calor infernal, o dia mais quente que apanhei até agora na viagem, sem dúvida. Quando estou de saída de um supermercado onde paro para comprar comida para os próximos dias, vejo dois rapazes de bicicleta a aproximarem-se. São polacos e andam a viajar a um ritmo impressionante. Saíram de casa há poucas semanas e esperam conseguir estar de volta dentro de alguns dias. Estão possuídos porque na noite anterior tiveram de pagar, pela primeira vez nesta viagem, para dormirem num parque de campismo, pois até agora têm ficado nos quintais de casas onde pedem para montar a tenda. Um deles diz que já engordou porque há casas onde lhes dão comida sem parar. Falam-me dos países que já atravessaram e quando oiço o nome “Roménia” pergunto-lhes se vieram pela transfagarasan, a estrada dramática que atravessa as montanhas fagaras e que liga a região da Transilvânia à da Walachia. Dizem que sim, que fizeram aquilo num instante e que comparado com o Passo dello Stelvio, nos Alpes italianos, que percorreram o ano passado, é coisa para meninos. Vou para lhes dizer que no ano passado, ao passar pela transfagarasan, demorei quase um dia para fazer a subida, mas se calhar não vale a pena. Como eles têm de ir ao supermercado e têm um andamento diferente do meu despedimo-nos com um até já. Como seguimos no mesmo sentido eles apanhar-me-ão mais à frente na estrada. A fronteira com a Croácia é precedida de uma subida terrível que parece não ter fim. Há que aceitar isso e por mais calor que tenha, se quero entrar na Croácia, não há outra forma senão seguindo por esta estrada. Após o controlo de passaporte espera-me uma descida refrescante. Estou sem água por isso entro no primeiro minimercado que encontro. Quando vou para pagar a funcionária faz-me um sorriso amarelo e diz que não aceitam euros. “Tou tramado”, cheio de sede, com a garrafa de água na mão, sem a poder comprar e com o multibanco mais próximo a vários km de distância. Um turista que está atrás de mim na fila mete a mão ao bolso, tira de lá umas kunas (a moeda croata) e paga por mim. Faço o mesmo gesto mas em sentido contrário. Saco de umas moedas de euro que o rapaz insiste em não receber mas que eu faço questão de lhe dar.  Entretanto estranho não ter sido ainda alcançado pelos polacos, mas minutos depois percebo que me terão ultrapassado enquanto eu estava no minimercado, isto porque dois ou três carros em sentido contrário me fazem sinais no sentido que, mais à frente se encontram outros ciclistas. Por todo o lado vejo placas turísticas e apercebo-me que estou na Riviera de Dubrovnik, mas hoje parece que a Riviera está zangada pois um vento noroeste fortíssimo cria ondas um cenário que nada tem a ver com aquele propagandeado pelos outdoors. Entro no primeiro parque de campismo que encontro, que tem acesso directo à praia, algumas dezenas de metros mais abaixo. Aproveito para tomar um banho de final de tarde num mar revolto, cheio de limos e com uns quebra-cocos enormes. Nada a que não esteja habituado no oeste português. 






quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Reencontro com o mar

Viagem e aprendizagem são sinónimas, andam sempre de mãos dadas. A primeira coisa que me vem à cabeça assim que acordo é que para a próxima viagem que fizer há duas coisas que não vão faltar na mochila: uns tampões para os ouvidos e uma máscara para dormir. Nesta noite que passou tinham dado um jeitão! Os primeiros para abafarem o ruído dos carros e camiões que passavam na estrada que fica a poucos metros do local onde tinha a tenda, a segunda para não acordar às 4 e pouco da manhã todos os dias, hora em que começa a amanhecer por estes lados. Na falta do tapa-olhos tenho dormido com o meu gorro polar enfiado até ao nariz… também serve. A decisão que tinha deixado para hoje, sobre qual a estrada a seguir, estava inconscientemente tomada desde há muito… era só uma questão do meu corpo ceder ao meu sonho: o de chegar às montanhas que abraçam a baía de Kotor ao pôr-do-sol. Não faço ideia se a vista de lá é boa e se é o melhor ângulo para fotografar a costa do adriático, por um motivo muito simples: nunca lá estive. Mas esse é o meu objectivo, por isso vou-me preparando mentalmente para que hoje seja o dia mais duro de toda a viagem, até agora. O terreno é um sobe e desce constante, são 100km até ao destino e às 8 da manhã já estão 30 e poucos graus. Não faço a mínima ideia se conseguirei chegar a Kotor hoje, mas também não estou preocupado… só tenho de estar em Veneza daqui a duas semanas para apanhar o voo de volta a casa. Os meus anfitriões não me deixam ir embora sem antes tomar o pequeno-almoço que me prepararam. Apesar de ser Domingo, o trabalho não pára e peço a um cliente da oficina que me tire uma foto com o dono. Para a posteridade fica a minha cara com o aspecto de ter sido atacada por um enxame de abelhas, mas não… foi só uma noite mal dormida. Despedidas feitas, morada anotada no meu caderno e sigo viagem.




A estrada percorre inicialmente as margens do lago onde tinha planeado ter ficado na noite anterior. O cenário que se vislumbra a partir daqui é diferente do que encontrei até agora: aldeias de pedra parecem nascer naturalmente na paisagem e as montanhas enrugam-se ainda mais. Já aqui tinha estado sem nunca cá ter posto os pés. Foi no Gerês, há alguns anos. Aqui tudo me lembra essa realidade em que a montanha cria as lendas, isola as aldeias e molda os homens, apenas com uma diferença: lá o granito, aqui o calcário. Aquilo que vinha sendo um passeio à beira do lago depressa se transforma numa subida sem fim. A vegetação, na sua maioria composta por mato e árvores, ajuda a quebrar o calor, pois em alguns locais as árvores fazem sombra a toda a largura da faixa de alcatrão. É o dia mais quente até agora, mas sinto-me bem. Às vezes, não sei vinda de onde, sou assaltado por uma energia súbita, que parecia estar guardada para estas alturas de maior esforço. O terreno é tão irregular e o mato tão cerrado que não consigo adivinhar qual o percurso que a estrada tomar na paisagem. Durante quilómetros a fio não encontro nenhuma recta com uma extensão superior a 100 metros. Sinto-me num carrossel: altos e baixos, esquerda, direita, os sentidos embriagados e um sorriso infantil no rosto. Passam cerca de 4 horas e até agora cruzei-me com 3 carros, 2 motas e algumas pessoas a pé, no meio do nada. De repente lembro-me das palavras do Seweryn, o polaco também a viajar de bike, que conheci uma semana antes, quando lhe perguntei acerca desta estrada - “Man that’s a crazyyyy road”. Não sabia se ele tinha dito isso por causa da beleza ou da dificuldade, mas agora já descobri: é por causa das duas. Na aldeia que fica sensivelmente a meio do trajecto que pretendo percorrer hoje, paro para almoçar. No único café da aldeia, saído de um filme dos anos 70, cobram-me 2 euros por uma coca-cola e por me encherem os bidões com água da torneira. Ao longe começo a reparar numa espécie de cortina montanhosa, limitada por um pico de onde sobressaem várias antenas retransmissoras. Imagino que seja na zona a oeste dessas elevações que fique situada a baía de Kotor. Entretanto as aldeias vão-se sucedendo. Passo por uma, longe de tudo, onde está um homem bêbado, debruçado em cima da mesa do único café. Do lado oposto da estrada vários homens cantam, bebem e acenam à minha passagem. A estrada começa finalmente a subir e vislumbro pela primeira vez o local onde deve ficar situado o passo de montanha que tenho de atravessar para chegar à baía de Kotor. Preciso de água e num edifício que serve de escola e junta de freguesia, no meio de nenhures, fica também um café. O dono, a única pessoa que resiste àquela desolação, permanece solitário a ver um filme que passa na TV. Enche-me os bidões e deseja-me boa viagem. Uns quilómetros mais à frente estaciono à sombra de uma casa abandonada para comer algo. Passados 5 minutos vejo aproximarem-se ao longe dois ciclistas com alforges. Param quando me vêm. São duas belgas que vão até à Grécia. Trocamos itinerários, dicas e quando lhes vou para dizer que está um calor de morrer, elas adiantam-se e dizem que a temperatura aqui é fresca, porque em kotor, de onde saíram hoje de manhã e para onde me dirijo, estão mais 10 graus. Engulo em seco! Elas já fizeram hoje mais de 1000 metros sempre a subir com este calor… sinto-me um menino ao pé destas duas viajantes que não parecem acusar muito cansaço. Já sei que faltam só 4 km para atingir o passo de montanha e depois deverei ver então o mar Adriático e a baía. Quase uma hora depois e estou praticamente no topo. Vou imaginando qual será o cenário que me espera lá em cima, agora que o sol começa a espalhar um tom laranja intenso por todo o lado, típico dos finais de tarde memoráveis. A estrada inclina-se mais um pouco, eu começo a ficar com um friozinho na barriga... o mar está do outro lado! Mais uma curva e, no meio da vegetação cerrada vejo o topo. É ali, consegui cá chegar! Estou radiante, ansioso e quando finalmente termino a subida…





Nada de água salgada! Vejo à minha frente o que se assemelha a uma enorme cratera, com cerca de 2 km de diâmetro, rodeada por escarpas de calcário enormes. Na sua base estão 3 aldeias e campos de cultivo que, qual paleta de cores, dão local um tom ainda mais mágico ao cenário. Ao fundo, no horizonte, consigo distinguir uma linha muito ténue. Imagino que seja o mar. A estrada desce até à base da cratera, para voltar a subir novamente no limite oeste desta. Estou inquieto e as minhas pernas imitam o coração: aceleram; e a vontade de ver para além daquele monte de calcário que está mesmo à minha frente é superior a todo o cansaço que possa ter. Passo por motociclistas que trazem um sorriso no rosto, imagino que da vista que acabaram de presenciar. Chego a um ponto em que vislumbro dois pináculos de rocha, rasgados pela estrada. Quando lá chego a montanha abre-se e dá lugar a uma vista impressionante sobre a baía de Kotor, o recorte das elevações mais próximas e o Mar Adriático. Paro a bicicleta, os meus olhos inundam-se e as lágrimas caem-me pelo rosto. Chorar de tanta felicidade é algo que não consegue ser avaliado por nenhum dos sistemas de medida inventados pelo ser humano. Sinto-me leve, nas nuvens, capaz de abraçar toda esta natureza que me envolve. Daqui até lá abaixo, à baía, são 22 km, através de 25 curvas em serpente, todas elas numeradas. Tiro as últimas fotos e deixo a máquina de lado. Eu e a bicicleta somos, agora mais que nunca, um só! Descida abaixo, o único movimento que o corpo executa é o de deitar-me para a esquerda ou para a direita, conforme a inclinação de cada curva. Quando chego finalmente à baía está um calor sufocante e já passa das 7 da tarde. Apanho um choque com a quantidade de gente que vejo por todo o lado, com a música alta que sai de um dos bares da marginal e com a confusão de carros desportivos, barcos e afins. Depois apercebo-me que hoje é Domingo... O Tomek, um polaco que conheci o ano passado na Roménia e do qual fiquei amigo, esteve há duas semanas aqui em kotor. Falámos pela net e ele deu-me umas indicações preciosas: qual o local onde fica um parque de campismo barato, quanto quilómetros são de lá até à antiga cidade de Kotor, etc… Faço como ele fez e dirijo-me a um camping, localizado já quase no centro da baía. Entretanto ainda me cruzo com um casal de ciclistas canadianos, que viajam entre Split e Istambul. chego ao parque, atulhado de gente, mas lá acabo por conseguir descobrir um recanto mais tranquilo. No entanto há uma coisa que me deixa feliz: do outro lado da estrada fica a água morna da baía e digo morna porque observo dezenas de pessoas que ainda tomam banho quando já são 11 da noite.