sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Até Split

Tenho 6 dias para chegar a Veneza, de onde vou apanhar o avião para Lisboa no próximo dia 12. Vai ser impossível lá chegar de bicicleta, por isso vou procurar por uma ligação de autocarro ou comboio até Itália. O melhor local para o fazer é Split e fica a cerca de dois dias de pedalada daqui. Quero lá chegar cedo depois de amanhã para me instalar num hostel e procurar opções de transporte para Itália no dia seguinte. À falta de melhor tenho sempre a opção de tentar apanhar uma boleia de alguém com espaço para me transportar a mim e à bicicleta. Assim hoje vou passar o dia em cima da bicicleta, para tentar chegar o mais próximo de Split que conseguir. As praias pelas quais vou passando são uma tentação mas prefiro deixar para o final do dia, depois de encontrar um local onde ficar, para um possível mergulho. Uns minutos depois de deixar o parque de campismo, viro para uma baía que se assemelha a um anfiteatro e alberga 2 aldeias. Uma delas parece-me, ao longe, ser merecedora de uma visita pois possuí um casario de calcário que trepa a encosta. A zona é realmente bonita, mas as inúmeras pensões e hotéis, mais os milhares de pessoas que se encontram a desfrutar do sol ao longo da praia rapidamente me empurram para voltar à estrada principal. Mas até lá ainda tenho de empurrar a bicicleta, literalmente, porque a inclinação é tanta que é maior a força da gravidade do que das minhas pernas. Este é o trecho de costa mais bonito de todos os que atravessei durante esta viagem e esta beleza só termina (para mim) quando chego à principal cidade da região – Makarska. A partir daqui a costa será diferente, mais humanizada e menos selvagem. Em Makarska vou pela primeira vez nesta viagem aos correios enviar dois postais.  A tarde irá ser difícil, com uma subida não muito inclinada mas extensa. No entanto a vista compensa tudo! Pelo meio ainda me cruzo com outro ciclista croata que está a fazer a costa de norte para sul e me confessa que tem um sonho: o de ir um dia até Portugal de bicicleta. Já ao final da tarde, após encontrar um pequeno parque de campismo gerido por um casal de idosos muito simpático, ainda aproveito para dar um mergulho, talvez pela última vez na viagem, nas águas quentes e transparentes do Adriático. 






A partir do parque de campismo, Split fica a cerca de 40 km de distância por uma estrada praticamente plana. Aproveito por isso as primeiras horas do dia para me fazer ao caminho, não sem antes dar conta que uma das tendas que está no camping pertence a um casal que anda a viajar numa moto clássica com um atrelado original. À medida que me vou aproximado da segunda maior cidade croata, os aglomerados de casas e pessoas intensificam-se, o trânsito é caótico e as placas de alojamento surgem casa sim, casa sim. Esta é a maior recordação que irei levar da Croácia: a palavra “sobe” (quarto) e um país que parece estar para aluguer, tal é a quantidade com oferta de alojamento à beira da estrada. Já perto de Split passam por mim duas ciclistas, também a viajar. Encontro-as mais à frente paradas a comerem qualquer coisa. Para também para uma última barra de cereais antes de entrar na cidade. São americanas e estão também na recta final da sua viagem… amanhã apanharão o avião de regresso ao outro lado do atlântico. Seguimos juntos ainda alguns quilómetros, mas a pedalada delas é muito superior à minha e na via rápida à entrada de Split acabam por desaparecer no horizonte. Estou agora numa via de acesso com duas faixas de cada lado, sem berma para a bicicleta e com um trânsito infernal. Fico mais descansado quando, por fim, vejo uma placa a indicar “Center”. Tenho de procurar uma sombra, o sol está a escaldar, não há uma ponta de vento e o check in no hostel onde vou ficar hoje só pode ser feito mais ao final da tarde. Umas palmeiras na baixa da cidade são o local mais procurado pelos turistas para se esconderem deste calor e eu também não sou diferente, assim que a sombra de uma delas fica livre, encosto a bicicleta a um banco e sento-me na relva a observar o movimento de pessoas e dos barcos que chegam e partem do cais que fica mesmo em frente. A certa altura oiço uma língua que me é familiar: 3 portugueses conversam animadamente enquanto passeiam pelo local. Ainda penso em meter conversa, mas a velocidade deles é maior a andar é maior que a minha a levantar-me e acabo por ficar sentado. Daí a uma hora vislumbro-os novamente a virem na minha direcção e interpelo-os. São do Porto (mesmo que me quisessem enganar era impossível, o sotaque não deixa) e estão no início de uma viagem de cerca de 15 dias pelos Balcãs. Pensam em alugar um carro e aproveito que tenho o portátil aberto á procura de uma rede de internet para lhes dizer que, se gostam de montanhas, têm de ir a Montenegro, ao Durmitor. Ficam impressionados com a beleza que as fotos mostram e dizem que talvez dêem lá um salto. 




Está na hora de fazer o check in no hostel, que fica mesmo no centro histórico de Split. Foi o mais barato que encontrei e mesmo assim é um balúrdio para o meu orçamento. Pelas informações da internet consegui apurar que é um espaço novo que foi reabilitado, um “design hostel” – o que quer que isso signifique. Habituado durante este último mês e meio a fazer coisas tão rudimentares como preparar refeições, montar e desmontar tenda e alforges, um quarto com código para entrar e para se ter acesso ao cacifo faz-me sentir como se estivesse dentro de uma nave. As camas do dormitório são encaixadas dentro da parede dão um aspecto ainda mais original ao local. Se calhar a ideia da nave até nem era assim tão descabida. Aproveito mais uma vez a luz do final de tarde para deambular pela zona histórica, aquela que faz mesmo valer a pena uma visita a Split, principalmente pelos restos que o palácio do imperador romano Dioclesiano mandou erigir em 293, quando começou a ponderar a sua retirada da política. A localização não foi escolhida ao acaso, já que não era muito longe daqui que se situava a cidade onde tinha nascido. O palácio propriamente dito era constituído por uma muralha de forma quadrada, dentro da qual se situavam os edifícios importantes, tais como o mausoléu, as termas e os edifícios residenciais. A particularidade do local está em como as sucessivas ocupações conseguiram sempre manter vestígios das suas antecedentes e esta zona da cidade é hoje um salto na história, literalmente, de edifico para edifico. Sentado na escadaria que dá para a praça onde hoje se situa a basílica que substituiu posteriormente o mausoléu, penso na importância que a luz está a ter nesta viagem, pois todos os momentos mais marcantes têm sido vividos em torno de alturas do dia em que a luz ganha contornos mágicos… Antes de regressar ao hostel ainda vou ter de ir ao terminal dos autocarros, que fica mesmo em frente à saída dos ferries e na traseira da linha de comboio. Pergunto por bilhetes para Itália, para Veneza… “Para Veneza não temos autocarros! Só para Trieste”. “Pode ser”, digo eu! Trieste fica logo após a fronteira croata, a cerca de 160 km de Veneza. Tentarei arranjar outro transporte até à cidade dos canais a partir daí. Entretanto lembro-me de um “pormenor” importante… “Então e há inconveniente de transportar comigo uma bicicleta”. A senhora faz o seu ar mais desprezível que consegue e diz “Não podemos assumir essa responsabilidade. Vai ter que falar com o condutor na altura do embarque!”. Pondero por uns segundos. São quase 40€ a viagem de autocarro, se me é negada a entrada perco esse dinheiro e a hipótese de chegar a Itália num transporte público directamente daqui. Arrisco. “Um bilhete por favor”, digo finalmente. O autocarro parte às 21:30 do dia seguinte e chega a Trieste no dia seguinte pela manhã. Vou ter de tentar arranjar uma caixa de cartão para colocar a bicicleta e rezar para que o motorista esteja bem-disposto. 




quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

De volta à Croácia

Depois de uma noite bem dormida e de um pequeno-almoço reforçado estou pronto para “atacar” novamente a estrada em cima da bicicleta. Depois dos dias de descanso acontece quase sempre o mesmo: habituados durante alguns dias ao relaxamento, os músculos contrariam por vezes a vontade enorme de voltar a pedalar. Mas como o que nos comanda é a nossa cabeça e os nossos sonhos, não ligo à preguiça dos músculos e enfrento a primeira subida do dia logo à saída de Mostar que me fará subir um par de centenas de metros em poucos quilómetros. A paisagem é agreste: vegetação rasteira, a maioria já seca, e calcário, sempre, por todo o lado. O bafo quente que se fazia na cidade vai desaparecendo à medida que vou subindo, montanha acima. Fico espantado com tão pouco movimento na estrada, de carros e pessoas. Já sei… hoje é Domingo! Preciosismos para um viajante… Começo a pensar que se calhar não é muito bom dia para ir a Kravice e às cascatas azul-turquesa que tornam a pequena aldeia tão famosa. Mas depois também penso que não há problema, passo por lá na mesma porque me fica a caminho e o máximo que me pode acontecer é gostar e acabar por passar por lá a noite. Pelo caminho começo a ver placas com a imagem da Virgem Maria, de ofertas de alojamento, restaurantes, etc. Todas elas têm um denominador comum: Medugorje. Quando chego ao cruzamento que assinala a vila a 3 km de distância, não hesito e viro à esquerda para investigar do que se trata. Ao chegar à entrada da vila começo rapidamente a aperceber-me onde estou… Medugorje é o local onde estão a ocorrer as mais recentes aparições da Virgem Maria. Desde 1991, com uma frequência diária durante alguns meses, passando depois a mensal e anual nos tempos que se seguiram. A igreja católica encontra-se ainda a estudar estas aparições, no sentido de verificar a sua veracidade, mas isso não afasta os crentes e a vila está transformada num bazar gigante, com lojas de souvenirs espalhadas por todo o lado, onde circulam milhares de pessoas que desçam de autocarros que parecem não acabar. Procuro informações no posto de turismo próximo do santuário acerca do caminho mais curto até às cascatas, que ficam a pouco mais de 15 km daqui, mas está fechado para almoço. Num pequeno jardim encontro uma sombra e almoço enquanto observo uma violinista que deve estar a rodar um filme, tal é o aparato de câmaras e dispositivos de som à sua volta. Não me apetece ficar aqui mais uma hora à espera do funcionário do turismo e meto-me de novo na bicicleta em direcção à estrada principal. Está um calor intenso e vou ter de parar no próximo local com água. Calha ser uma estação de serviço. Calha também ter uma rede de internet desbloqueada e aproveito para ver mais algumas hipóteses para o final da tarde, caso não me interesse muito pelas cascatas, que ficam a 15 minutos daqui.




O local onde se situam é um pequeno vale situado num planalto e ninguém de perfeito juízo diz que ali, entre um manto de árvores e arbustos que resistem como podem às temperaturas, possa estar um sítio tão belo, mas também tão barulhento e cheio de pessoas. Imagino isto no Outono, sem ninguém, com a paisagem com tons laranja… só imagino porque agora mesmo estão ali centenas de pessoas que se distribuem como podem pelas margens, pela água e por qualquer canto onde exista uma sombra. Volto a pegar na bicicleta e desapareço em direcção à fronteira com a Croácia, que fica a cerca de 20 km do ponto onde me encontro. Pelo caminho atravesso vilas e aldeias embaladas na pacatez de um final de Domingo, vejo cortejos de casamentos e algumas pessoas que aproveitam as últimas horas de um sol maravilhoso. A Fronteira é a primeira que atravesso em que tenho de segurar a bicicleta entre as pernas enquanto mostro o passaporte ao agente sentado no interior da cabine, pois fica numa subida íngreme. Vou fazer um esforço para tentar chegar à costa ainda hoje, mas rapidamente percebo que vai ser impossível. Daqui a uma hora vai estar de noite e a estrada é uma montanha russa de altos e baixos constantes. Quando já tenho alguns km em solo Croata chego a um planalto anichado entre montanhas que contrasta com tudo o resto: terrenos de cultivo e árvores de fruto distribuídos geometricamente contrastam com as elevações circundantes agrestes e selvagens. Há um passo de montanha a pouca distância daqui, já o consigo vislumbrar ao longe. Estou cansado mas cerro os dentes, repito para mim mesmo palavras de motivação que me ajudam a combater o cansaço e a passar aquele ponto, porque sei que depois será sempre a descer. Na primeira aldeia dessa descida paro ao lado de um senhor já com alguma idade que traz legumes acabados de apanhar para perguntar por um sítio para montar a tenda. Diz-me que parques de campismo ali não existem (raios, no mapa que tenho estava um assinalado mesmo aqui!), mas rapidamente se monta na sua bicicleta e pede para que o siga. Pelo caminho as pessoas da aldeia vão saudando o senhor à sua passagem e imagino que perguntem de onde me conhece e onde me leva… eu também não sei. Cinco minutos depois estamos à beira de um lago rodeado de juncos e de uma pequena zona relvada. O homem faz um movimento que abarca toda a zona da relva e diz-me por gestos que posso ali ficar descansado. Há um silêncio ensurdecedor, uma calma inexplicável. Algumas casas debruçam-se sobre o lago e ao longe crianças deliciam-se com o último banho do dia.




O dia volta a começar cedo e ao longe consigo já vislumbrar o mar. Encosto no primeiro local que vejo para me abastecer com água. Tenho azar, é um restaurante de beira de estrada e leva-me quase 2€ por uma garrafa de água. Digo para mim mesmo que vou deixar de lado os “politicamente correctos” e que na próxima situação do género vou fazer o mesmo que tenho feito noutros locais: ir directamente à casa de banho para encher os bidões da bicicleta com água da torneira. Está um dia brutal, com uma luz lindíssima e uma temperatura convidativa a mergulhos na água que fica logo do lado esquerdo da estrada. Passada cerca uma hora em cima da bicicleta, a estrada vai serpenteando pela base das montanhas que terminam abruptamente nas águas cristalinas do Adriático. Depois de uma curva à esquerda vejo um carro parado e apercebo-me de uma pequena praia escondida entre os pinheiros. Encosto a bicicleta e vou investigar. Nem acredito! Uma pequena praia de seixos que parece quase desaparecer à maré cheia, a julgar pela marcas deixadas pela água, rodeada de pinheiros que se dobram por cima da água e conferem ao local um aspecto de esplanada natural, encontra-se praticamente deserta. Volto ao local onde deixei a bicicleta, e desço com ela pelo trilho que conduz à praia, amarro-a a um pinheiro, tiro comida, uma toalha e uns calções de banho dos alforges e desço até perto da água. Para quem passa de carro, umas dezenas de metros mais acima, este é um local que passa completamente despercebido, talvez por isso só se encontrem 5 pessoas neste espaço. São 9h30 e a julgar pela cara de quem está a tentar tomar o primeiro banho da manhã, a temperatura não deve ser muito convidativa. “Mas não era  suposto a água da costa croata ser quente”? – penso.  Faço como vejo fazer e abordo a entrada no mar com cuidado, mas só para descobrir o quão ridículo estou a ser. A temperatura da água está a uma temperatura entre 21 e os 23 graus. Esta gente deve estar habituada a água ainda mais quente. Eu não, que nasci no oeste português, habituado ao gelo das temperaturas provocadas pelas nortadas de verão. Para mim isto está sopa! Sorrio com esta situação enquanto mergulho com os olhos abertos para sentir toda a beleza do mar que me envolve. Deixo-me ficar nesta rotina banho-toalha-banho-toalha até às 4 da tarde, altura em volto a pegar na bicicleta para fazer alguns km até ao parque de campismo onde passarei a noite. 





terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Ao fresco no calor de Mostar

Não sou muito adepto do ar condicionado, mas com o bafo que se faz sentir, mesmo à noite, um sono num local fresco sabe-me a ginjas. O quarto tem acesso directo ao terraço do hostel. Só preciso de meter um pé ao sol para perceber que com este calor só irei sair daqui ao final da tarde para visitar a cidade. Deixo-me ficar pela sombra do alpendre a actualizar o blogue, a ver a rota para os próximos dias, a ler um pouco acerca da história da cidade e a fazer a “limpeza da casa” – lavar a roupa e reorganizar a comida. Mostar, que faz parte da região da Herzegovina, uma das duas que constitui a Bósnia e Herzegovina, tem hoje em dia cerca de 115 mil habitantes, repartidos entre uma maioria croata e muçulmana, sendo que servos e jugoslavos completam a restante paleta demográfica desta cidade que é actualmente um dos principais destinos turísticos do país. A guerra provocada pela declaração da independência do país relativamente à Jugoslávia, fez com que Mostar fosse o principal palco de um conflito armado sangrento durante cerca de 3 anos, entre 1992 e 1995. De um lado os bósnios-croatas, do outro os bósnios sérvios, pelo meio milhares de civis mortos. Na net bastam alguns segundos de pesquisa para se observarem as cenas do costume…tiros, violência, pessoas inocentes mortas e desalojadas. Lembro-me do meu país e da dor que ainda persiste na maioria das famílias portuguesas por causa das consequências da guerra colonial e tento imaginar que marcas pode uma guerra tão recente ter deixado na vida das pessoas que passam ao meu lado na rua. A resposta não é difícil… a contrastar com a alegria dos mais jovens, certos idosos parecem carregar em si toda a brutalidade de um episódio tão recente. Alguns edifícios são ainda o espelho dessa brutalidade…marcas de tiros e granadas em alguns ainda habitados, sinais de bombas noutros completamente destruídos. No meio disto tudo um fluxo turístico intenso. Penso nisto tudo enquanto observo o “fluir” das pessoas pelas ruas, sentado em frente a uma das 6 mesquitas que subsistem hoje em dia. A maior atracção é a zona antiga, paralela ao rio e a Stari Most, a famosa ponte em arco, construída em meados do séc. XVI, destruída no dia 9 de Novembro de 1993 pelos bombardeamentos e reerguida com o alto patrocínio da UNESCO em 2004. Depois disso veio a classificação como património mundial. No meio desta massa de gente, tento imaginar como seria o movimento aqui à algumas dezenas de anos, por entre bancas, recantos e locais de oração. Observo a última luz do dia na margem do rio Neretva. Podia ser um cenário idílico não fosse o cheiro nauseabundo a esgoto que vem do rio, mas isso não parece suficiente para demover as pessoas que ali se encontram a tomar um banho refrescante. Eu prefiro o do chuveiro do hostel… Depois de um hamburger ao jantar, aproveito para fazer as compras para os próximos dois dias no supermercado da rua principal. 




É quando venho com os sacos pendurados nas mãos a trautear uma música, que alguém me chama. Viro-me… não acredito!!! O rapaz que conheci em Skopje e voltei a encontrar semanas mais tarde no Durmitor em Montenegro! O cenário repete-se: abraçamo-nos e damos gritos por tamanha coincidência. Falamos dos trajectos que aqui nos trouxe depois do último encontro, ele apresenta-me os amigos que o acompanham para uma investida nocturna aos bares da cidade e rimos durante mais uns minutos. Desta vez não me esqueço de tirar uma foto, mas reparo que a máquina não tem bateria.. Fica para a próxima! Agora já não nos despedimos com “até um dia” mas com um “até já”! Vou ainda a pensar nestas coincidências quando, ao entrar no quarto do hostel dou de caras com outra das pessoas que partilha o quarto - ao todos somos 6: um casal de australianos que anda a dar uma volta pela Europa e veio parar a Mostar depois de ter comprado o carro mais barato que viu quando passou por Londres, 3 italianos de mochila às costas a percorrer a Costa do Adriático e um português de bicicleta… É com um desses italianos que me cruzo. Depois de saber a minha nacionalidade diz-me que o seu escritor favorito é o Saramago e o livro de referência o “Memorial do Convento”. Digo-lhe que moro a 40 minutos do convento de Mafra e que é obrigatório ele lá ir quando visitar Portugal, acompanhado do livro claro. Diz-me também que se cruzou há uns dias atrás com dois ciclistas polacos meio avariados do capacete, que pedalavam de tronco nu e já tinham feito não sei quantos quilómetros… “Espera lá!” – penso eu. “São uns com alforges de tecido, um deles tem óculos, fisionomia oriental e têm que estar na Polónia daqui a pouco mais de uma semana?” - pergunto. “Esses mesmo! Também os conheces?”… não acredito! Num espaço de meia hora tanta coincidência junta! “Sim, cruzei-me com eles perto da fronteira de Montenegro com a Croácia, mas acabámos por não nos voltar a ver”. Deito-me a pensar nisto… Quantas variáveis diferentes são necessárias para que o destino me traga aqui e agora, a encontrar pessoas com as quais já me cruzei antes e, pior ainda, a cruzar-me com outras que por sua vez também conheceram as mesmas pessoas que eu. Basta sair de casa para perceber quão pequeno o mundo é.




quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Coácia-Bósnia-Croácia-Bósnia (Mostar)

Logo pela manhã, o pequeno-almoço é passado na companhia do casal francês. Contactos trocados, despedidas feitas e monto na bicicleta com destino a Mostar, na Bósnia. Mas para lá chegar ainda terei de passar 3 fronteiras. Explico: A Croácia e a Bósnia são países vizinhos, sendo que este último detém um trilho de costa com cerca de 10km, com a Croácia a Sul e a Norte. Isto significa que cerca de 5 km depois de começar a pedalar, tenho a fronteira com a Bósnia à minha frente e apenas 10 km após essa fronteira tenho outra novamente, desta feita para reentrar na Croácia. Há uma fila de carros gigante. Apetece-me passar à frente de toda a gente que está sentada confortavelmente no interior de cada veículo com o ar condicionado ligado, mas a boa educação manda-me aguardar pela minha vez. Quando finalmente chego a uma das cabines do posto fronteiriço, percebo o porquê de tanto demora… um dos funcionários deve ser recente e demora 5 vezes mais tempo a verificar os papéis, comparativamente com os seus colegas de trabalho. Depois desta trapalhada toda espera-me uma subida difícil, com muito calor à mistura, mas no topo a vista é recompensadora… um vale enorme, todo cultivado e aninhado entre as montanhas, apresenta uma paleta de verdes impressionante, com dezenas de canais a servirem de via de comunicação. Quando chego a Opuzen, a cidade que serve de entrada para esse vale lindíssimo, paro para fazer compras e abastecer o estômago. Volvidos 10 km estou novamente às portas do posto fronteiriço de Metkovic. O calor começa cada vez a mais a apertar. Despejo água pela cabeça, cerro os olhos e contínuo. As primeiras vilas e aldeias deixam antever uma diferença enorme, relativamente à turística costa croata. Aqui e ali vêm-se algumas marcas da guerra recente: pontes caídas, casas com marcas de balas, edifícios em ruínas… Todas estas marcas parecem também reflectir-se no rosto das pessoas mais velhas, que certamente sofreram na pele as consequências de um conflito que perdurou durante 3 anos e vitimou cerca de 200.000 civis. A estrada desenrola-se ao longo da margem esquerda do rio Neretva, que nasce nos Alpes dináricos, a cerca de 30 km de Sarajevo e é considerado um dos rios mais frios do mundo, pois as suas águas atingem no verão uma temperatura máxima de 8 graus. A sua particularidade reside também na sua cor verde-esmeralda única. Pedalo meio embriagado com esta cor única quando à minha frente surge Pocitelj, uma cidade amuralhada construída em 1383, hoje património integrante da lista da Unesco. Está demasiado calor para deixar a bicicleta de lado e fazer uma visita com mais tempo ao local. Acabo por escolher uma sombra para repor mais algumas calorias. Daqui até Mostar são cerca de 30 km lindíssimos, através de um Canyon salpicado aqui e ali por algumas entradas de grutas. À medida que avanço para o interior a temperatura é cada vez mais sufocante. Já com Mostar à vista sou obrigado a parar numa estação de serviço para meter a cabeça debaixo da água da torneira. As sobrancelhas queimam, só da deslocação do ar. Saberei mais tarde que os termómetros marcaram neste dia cerca de 42 graus. Quando entro finalmente na cidade sinto um alívio enorme. Uma das primeiras coisas que vejo é a famosa ponte, que dá ao centro histórico todo o seu encanto. Entre edifícios com marcas de balas, outros recuperados e alguns destruídos, ainda me perco à procura do Hostel, mas depois de algumas tentativas lá consigo dar com o local. A primeira coisa que faço assim que entro na camarata é pousar as bagagens e tomar um banho refrescante. Só volto a sair do quarto para comprar um Burek de queijo de cabra para o jantar e para sentir o pulso ao centro histórico.







terça-feira, 19 de novembro de 2013

Na costa croata

O dia amanhece com uma brisa que sopra de terra e que deixa finalmente que as águas da Croácia mostrem porque são mundialmente famosas. A estrada que liga o camping a Dubrovnik, o local onde pretendo ficar hoje, percorre a vertente da montanha que se despenha abruptamente nas águas transparentes do Adriático. A cidade é visível a vários quilómetros de distância, mas a sua imponência só é verdadeiramente perceptível quando atinjo o miradouro que deixa antever um cenário fantástico: a fortaleza de pedra com o seu casario no interior e no horizonte algumas das mais de 1000 ilhas que fazem parte da costa deste país. Está um calor tremendo e o trânsito não dá tréguas, obrigando sempre a uma atenção redobrada. Afinal esta é a principal estrada que liga o norte do mar Adriático até ao seu extremo sul. Quando entro no emaranhado de vivendas e pequenos prédios que compõem os arredores da antiga cidade, o trânsito e o movimento de pessoas intensifica-se ainda mais. Dou três voltas ao perímetro das muralhas, para ver se encontro um local seguro onde possa deixar a bicicleta e assim visitar descansado este local classificado pela Unesco. Ainda pergunto num parque de estacionamento subterrâneo se dá para deixar a bicicleta só por um par de horas. Nada feito! Lembro-me do posto da polícia, que fica a umas dezenas de metros dali. Ao chegar lá meto conversa com um guarda que sai para a ronda. Com aquela que deve ser a sua melhor educação manda-me ir procurar outro lado. Já estou nisto há quase duas horas e decido que já chega. Faço-me à estrada para percorrer os 7 km que me separam do hostel onde vou ficar, o alojamento mais barato que encontrei, visto que em Dubrovnik pediam 25€ por pessoa para ficar no parque de campismo. O hostel é gerido por um membro da claque mais antiga da Europa: a “Torcida” do Hajduc Split, fundada em 1950. A maioria das paragens de autocarro que ficam situadas entre a fronteira sul da Croácia e a cidade de Split estão pintadas com as cores e os emblemas do clube. Nunca tinha visto nada assim e falo com o dono acerca disso. A tarde é aproveitada a relaxar e a decidir o que fazer nos próximos dias… tanta confusão e trânsito estão a deixar-me cansado. Decido que amanhã bem cedinho voltar a Dubrovnik para visitar a cidade e nos dias seguintes vou virar para o interior e aproveitar para visitar Mostar, na Bósnia.






Não consigo acordar tão cedo como tinha planeado, mas às 9 já estou em Dubrovnik pronto para dar uma volta pela fortaleza que parece impenetrável. Centenas de turistas percorrem já as principais avenidas e ruelas da cidade. Apesar de toda esta massa de gente, certos locais parecem permanecer indiferentes à passagem do tempo. Num beco, uma pequena porta deixa antever uma barbearia antiga, com as suas paredes carregadas de lembranças e objectos. Na sombra das pracetas, grupos de reformados sentados em bancos de jardim discutem as peripécias da vida. As ruas principais estão transformadas num shopping de souvenirs intermináveis e as margens da pequena marina servem de palco para a venda de vários Tours turísticos. Passada pouco mais de uma hora, decido que é tempo de voltar à estrada. Passo pelo hostel para colocar as bagagens na bicicleta e sigo viagem. Cerca de 10km mais à frente, o calor e um cruzamento com a indicação de praia fazem-me virar á esquerda em direcção ao mar. Acabo numa pequena baía com meia dúzia de pessoas e uma água fantástica, local perfeito para o almoço, um banho e uma sesta retemperadora. De volta à estrada, tudo na mesma: a montanha do lado direito, o mar do esquerdo. A certa altura começa a levantar-se um vento frontal fortíssimo. Estou cansado, sem água e não avisto nenhuma aldeia nas redondezas. Decido que vou parar para pernoitar no próximo local onde encontrar água. Chego a uma baía interior onde se encontram dezenas de viveiros de ostras. Procuro nas barracas dos pescadores por alguém que me possa fornecer um pouco de água. Nada! Estão todas vazias. Ao fundo da baía avisto uma aldeia… é a minha tábua de salvação. Quando me preparo para meter pela estrada que me irá levar até lá reparo numa autocaravana estacionada numa pequena estrada de terra batida sem saída, mesmo á beira de água. Cá fora uma senhora prepara a mesa para o jantar. Aproximo-me timidamente e pergunto se me podem encher uma garrafa de água. É um casal de franceses e claro que me podem fornecer um pouco de água. Depois de uns minutos de conversa convidam-me para passar ali a noite. Monto a tenda perto da traseira da autocaravana e de seguida jantamos juntos. O que à pouco era um fim de tarde cansativo tornou-se num início de noite fantástico… Junto com umas fatias de salmão, partilhamos um “Bordéus” branco fresquinho, que os acompanha desde França, sobre um céu estrelado maravilhoso.