Tenho 6 dias para chegar a
Veneza, de onde vou apanhar o avião para Lisboa no próximo dia 12. Vai ser
impossível lá chegar de bicicleta, por isso vou procurar por uma ligação de
autocarro ou comboio até Itália. O melhor local para o fazer é Split e fica a
cerca de dois dias de pedalada daqui. Quero lá chegar cedo depois de amanhã
para me instalar num hostel e procurar opções de transporte para Itália no dia
seguinte. À falta de melhor tenho sempre a opção de tentar apanhar uma boleia
de alguém com espaço para me transportar a mim e à bicicleta. Assim hoje vou
passar o dia em cima da bicicleta, para tentar chegar o mais próximo de Split
que conseguir. As praias pelas quais vou passando são uma tentação mas prefiro
deixar para o final do dia, depois de encontrar um local onde ficar, para um
possível mergulho. Uns minutos depois de deixar o parque de campismo, viro para
uma baía que se assemelha a um anfiteatro e alberga 2 aldeias. Uma delas
parece-me, ao longe, ser merecedora de uma visita pois possuí um casario de
calcário que trepa a encosta. A zona é realmente bonita, mas as inúmeras
pensões e hotéis, mais os milhares de pessoas que se encontram a desfrutar do
sol ao longo da praia rapidamente me empurram para voltar à estrada principal.
Mas até lá ainda tenho de empurrar a bicicleta, literalmente, porque a
inclinação é tanta que é maior a força da gravidade do que das minhas pernas.
Este é o trecho de costa mais bonito de todos os que atravessei durante esta
viagem e esta beleza só termina (para mim) quando chego à principal cidade da
região – Makarska. A partir daqui a costa será diferente, mais humanizada e
menos selvagem. Em Makarska vou pela primeira vez nesta viagem aos correios
enviar dois postais. A tarde irá ser
difícil, com uma subida não muito inclinada mas extensa. No entanto a vista
compensa tudo! Pelo meio ainda me cruzo com outro ciclista croata que está a fazer
a costa de norte para sul e me confessa que tem um sonho: o de ir um dia até
Portugal de bicicleta. Já ao final da tarde, após encontrar um pequeno parque
de campismo gerido por um casal de idosos muito simpático, ainda aproveito para
dar um mergulho, talvez pela última vez na viagem, nas águas quentes e
transparentes do Adriático.





A partir do parque de campismo, Split fica a cerca
de 40 km de distância por uma estrada praticamente plana. Aproveito por isso as
primeiras horas do dia para me fazer ao caminho, não sem antes dar conta que
uma das tendas que está no camping pertence a um casal que anda a viajar numa
moto clássica com um atrelado original. À medida que me vou aproximado da
segunda maior cidade croata, os aglomerados de casas e pessoas intensificam-se,
o trânsito é caótico e as placas de alojamento surgem casa sim, casa sim. Esta
é a maior recordação que irei levar da Croácia: a palavra “sobe” (quarto) e um
país que parece estar para aluguer, tal é a quantidade com oferta de alojamento
à beira da estrada. Já perto de Split passam por mim duas ciclistas, também a
viajar. Encontro-as mais à frente paradas a comerem qualquer coisa. Para também
para uma última barra de cereais antes de entrar na cidade. São americanas e
estão também na recta final da sua viagem… amanhã apanharão o avião de regresso
ao outro lado do atlântico. Seguimos juntos ainda alguns quilómetros, mas a
pedalada delas é muito superior à minha e na via rápida à entrada de Split
acabam por desaparecer no horizonte. Estou agora numa via de acesso com duas
faixas de cada lado, sem berma para a bicicleta e com um trânsito infernal.
Fico mais descansado quando, por fim, vejo uma placa a indicar “Center”. Tenho
de procurar uma sombra, o sol está a escaldar, não há uma ponta de vento e o
check in no hostel onde vou ficar hoje só pode ser feito mais ao final da
tarde. Umas palmeiras na baixa da cidade são o local mais procurado pelos
turistas para se esconderem deste calor e eu também não sou diferente, assim
que a sombra de uma delas fica livre, encosto a bicicleta a um banco e sento-me
na relva a observar o movimento de pessoas e dos barcos que chegam e partem do
cais que fica mesmo em frente. A certa altura oiço uma língua que me é
familiar: 3 portugueses conversam animadamente enquanto passeiam pelo local. Ainda
penso em meter conversa, mas a velocidade deles é maior a andar é maior que a
minha a levantar-me e acabo por ficar sentado. Daí a uma hora vislumbro-os
novamente a virem na minha direcção e interpelo-os. São do Porto (mesmo que me
quisessem enganar era impossível, o sotaque não deixa) e estão no início de uma
viagem de cerca de 15 dias pelos Balcãs. Pensam em alugar um carro e aproveito
que tenho o portátil aberto á procura de uma rede de internet para lhes dizer
que, se gostam de montanhas, têm de ir a Montenegro, ao Durmitor. Ficam
impressionados com a beleza que as fotos mostram e dizem que talvez dêem lá um
salto.



Está na hora de fazer o check in no hostel, que fica mesmo no centro
histórico de Split. Foi o mais barato que encontrei e mesmo assim é um balúrdio
para o meu orçamento. Pelas informações da internet consegui apurar que é um
espaço novo que foi reabilitado, um “design hostel” – o que quer que isso
signifique. Habituado durante este último mês e meio a fazer coisas tão
rudimentares como preparar refeições, montar e desmontar tenda e alforges, um
quarto com código para entrar e para se ter acesso ao cacifo faz-me sentir como
se estivesse dentro de uma nave. As camas do dormitório são encaixadas dentro
da parede dão um aspecto ainda mais original ao local. Se calhar a ideia da
nave até nem era assim tão descabida. Aproveito mais uma vez a luz do final de
tarde para deambular pela zona histórica, aquela que faz mesmo valer a pena uma
visita a Split, principalmente pelos restos que o palácio do imperador romano
Dioclesiano mandou erigir em 293, quando começou a ponderar a sua retirada da
política. A localização não foi escolhida ao acaso, já que não era muito longe
daqui que se situava a cidade onde tinha nascido. O palácio propriamente dito
era constituído por uma muralha de forma quadrada, dentro da qual se situavam
os edifícios importantes, tais como o mausoléu, as termas e os edifícios
residenciais. A particularidade do local está em como as sucessivas ocupações
conseguiram sempre manter vestígios das suas antecedentes e esta zona da cidade
é hoje um salto na história, literalmente, de edifico para edifico. Sentado na
escadaria que dá para a praça onde hoje se situa a basílica que substituiu
posteriormente o mausoléu, penso na importância que a luz está a ter nesta
viagem, pois todos os momentos mais marcantes têm sido vividos em torno de
alturas do dia em que a luz ganha contornos mágicos… Antes de regressar ao
hostel ainda vou ter de ir ao terminal dos autocarros, que fica mesmo em frente
à saída dos ferries e na traseira da linha de comboio. Pergunto por bilhetes
para Itália, para Veneza… “Para Veneza não temos autocarros! Só para Trieste”.
“Pode ser”, digo eu! Trieste fica logo após a fronteira croata, a cerca de 160
km de Veneza. Tentarei arranjar outro transporte até à cidade dos canais a
partir daí. Entretanto lembro-me de um “pormenor” importante… “Então e há
inconveniente de transportar comigo uma bicicleta”. A senhora faz o seu ar mais
desprezível que consegue e diz “Não podemos assumir essa responsabilidade. Vai
ter que falar com o condutor na altura do embarque!”. Pondero por uns segundos.
São quase 40€ a viagem de autocarro, se me é negada a entrada perco esse
dinheiro e a hipótese de chegar a Itália num transporte público directamente
daqui. Arrisco. “Um bilhete por favor”, digo finalmente. O autocarro parte às
21:30 do dia seguinte e chega a Trieste no dia seguinte pela manhã. Vou ter de
tentar arranjar uma caixa de cartão para colocar a bicicleta e rezar para que o
motorista esteja bem-disposto.