quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Andar à Roda na... Antena 1

E a entrevista inesperada à Antena1, no programa do José Candeias, relatando um pouco daquilo que foi a viagem. Um muito obrigado por esta oportunidade.

Uma cortesia da Antena1.

http://rsspod.rtp.pt/podcasts/at1/1308/2601821_140514-1308121204.mp3



terça-feira, 17 de dezembro de 2013

A chegada!

O dia começa mais cedo do que o normal... ligaram-me na Quinta-feira passada de Portugal, da Antena 1, a dizerem que souberam da viagem através de um contacto de alguém que segue o blog e que me queriam fazer uma entrevista em directo no programa da manhã do José Candeias. Assim como fiquei estupefacto com este telefonema, também estou meio nervoso agora. Vão ligar-me dentro de poucos minutos para eu entrar em directo. A entrevista lá corre entre os sorrisos nervosos e gaguejos de alguém que tenta explicar que não está a fazer nada de transcendente, mas uma surpresa no final lá me deixa finalmente descontraído. Quero estar na loja à hora de abertura (10h), para que, caso algo não corra como previsto, tenha tempo de ir a outras lojas de bicicletas. Uma via rápida com 2 faixas e muito trânsito é o caminho mais rápido. Chego com 15 minutos de antecedência, estaciono a bike no local apropriado e espero. Assim que o segurança dá sinal para se abrirem as portas dirijo-me ao sector das bicicletas, explico-me ao funcionário e passados dois minutos tenho a caixa de cartão na mão e um alívio enorme na consciência. O caixote é enorme, muito maior do que todos os outros que já tive de utilizar até agora. Para o levar até ao camping tenho de o dobrar o mais que consigo e atá-lo à mochila. Ainda por cima está vento, coisa rara ao longo dos últimos 50 dias, mas umas centenas de metros são suficientes para me habituar a esta “carapaça”. No parque de campismo 40 minutos chegam para arrumar tudo e colocar toda a bagagem na bicicleta. Contas feitas na recepção e desapareço em direcção ao aeroporto, a 7 km de distância. Pelo caminho os olhares de espanto por parte das pessoas com quem me vou cruzando na estrada, reflectem também o meu estado de espírito – sorrio só de pensar que às minhas costas está um cartão com um metro e meio de altura que me faz parecer uma espécie de homem-foguete. 



Chego rapidamente ao destino quando faltam ainda 4 horas para o voo. A sombra de uma pequena construção no parque de estacionamento é o local perfeito para montar a caixa de cartão, desmontar a bicicleta e as bagagens e embalar tudo num só volume. Andar com uma caixa de cartão deste tamanho no aeroporto é, por si só, uma aventura, porque tenho de andar com a cabeça de lado para ver  por onde vou, o que me faz parecer um miúdo que joga às escondidas sem parar. A prioridade ao entrar no edifício principal é ver como está o estado do voo… atrasado uma hora. Tranquilo! Não tenho pressa. As horas que me separam da entrada para o avião irão ser passadas entre sandes, música e check-in com pessoal stressado. Na hora de partir o avião está cheio, mas ainda há tempo para uma pequena confusão por causa de dois passageiros que têm o mesmo lugar atribuído no bilhete. Durante o voo vou revendo mentalmente os momentos passados ao longo destes 50 dias e sorrindo com a ideia de ter em Lisboa 2 pessoas fantásticas à minha espera. O avião aterra, gera-se a confusão normal com a recolha das bagagens, mas não há sinal da bicicleta. Também um espanhol que por ali anda tem em falta o carrinho de bebé do filho. Do tapete das bagagens fora de formato, nem sinal de vida. Depois de chamarmos uma assistente de terra reparo que o tapete começa a funcionar… abre-se a persiana para a bagagem sair mas…não sai bagagem nenhuma e a persiana volta a fechar-se. Um minutos depois percebo a razão: a caixa da bicicleta é tão grande que está presa no lado de lá do tapete e com ela também o carrinho de bebé. Oiço uns funcionários a ajeitarem o caixote e finalmente vejo a tão desejada embalagem. Já não consigo parar de sorrir com esta situação e com o facto de, a escassos metros dali, estarem pessoas que não vejo há quase 2 meses. O reencontro dá-se! Abraços e beijos, alegria… Agora só falta conseguir colocar a caixa dentro da caixa da minha carrinha! Nada que uns rasgões no caixote não resolvam. Pegar num volante de um carro parece-me agora um acto estranho e ainda mais estranho me parece estando eu a conduzir em direcção ao conforto de casa. A viagem começa e acaba quando, dentro de mim, começo a pensar na próxima. É por isso que agora, ao volante do carro, ainda estou a viajar.



quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Veneza

Às 7 da manhã já estou a pé. Quando saio da tenda o Cyril e a Cécile já deixaram o parque em direcção ao aeroporto. Apresso-me com o pequeno-almoço e com a higiene matinal para estar a tempo na paragem de autocarro para ir a Veneza. Chego uns minutos antes à paragem e ainda bem, porque me esqueci do bilhete na tenda e não o posso adquirir no autocarro. Dou uma corrida de ida e volta, ainda a tempo de apanhar o transporte que em dez minutos me deixa na entrada principal (e única para quem vem de carro) de Veneza. Há um silêncio e uma calma enormes, só quebrado pelo marulhar da água dos canais contra as paredes das casas. As ruas estão praticamente desertas, mas já se vêem, aqui e ali, alguns grupos de turistas. Tive muito pouco tempo para pesquisar alguma coisa sobre a história de Veneza e sobre a influência que teve, enquanto capital de um pujante estado comercial da alta Idade Média, que abrangeu ainda uma área de terreno considerável, estendendo-se, por exemplo, até às ilhas do Adriático. Deixarei para depois, quando estiver já em casa, fazer toda a pesquisa relativa aos lugares onde estive. Sempre é outra forma de perpetuar a memória desta viagem. Ainda assim, da pouca coisa que li, uma saltou-me imediatamente à vista… nos últimos dez anos Veneza perdeu metade dos seus habitantes. Em sentido contrário aumentou desmesuradamente o fluxo de turistas. Será a primeira coisa consequência da segunda? Tudo o que envolve o turismo de massas envolve também excessos a todos os níveis. O termo “Sustentado” devia ser utilizado mais na prática do que na teria. 






Nada desta conversa tira, no entanto, a importância aos canais, às casas, aos recantos menos visitados. O pleno encanto deste lugar fica é adiado na minha existência… talvez no inverno, num dia de semana com frio e com aquele sol mais deitado no horizonte. As ruas em si são um labirinto de tamanho XL, ora com túneis, arcos, ruas que terminam abruptamente, becos sem uma geometria bem definida e a água, sempre a água por todo o lado. Os barcos são os automóveis, as bicicletas, os táxis e as ambulâncias desta cidade. Vejo centenas de gôndolas nas horas que passo a vaguear pelas ruelas. Às 10 horas, tal como tinha acontecido no dia anterior com os meus amigos franceses, a multidão invade os pontos mais turísticos, tal como uma onda que entra pela praia à maré enchente. Nesse preciso momento encontro-me na praça de S. Marcos, o local mais visitado da cidade. As vozes das pessoas ecoam nas paredes majestosas dos edifícios que a compõem, lado a lado com o bater de asas dos pombos, que estão por todo o lado. Sento-me à sombra, debaixo das arcadas que permitem também o acesso ao museu. A velocidade com que as pessoas passam de um lado para o outro é impressionante. Sinto-me em câmara lenta no meio de toda esta azáfama. Sem querer encontro uma livraria que parece minúscula à primeira vista, mas que afinal ocupa todo o rés-do-chão de dois edifícios com livros em segunda mão. Durante mais um par de horas vagueio pela área norte deste emaranhado de casas dentro de água, tentando focar a minha atenção nos pormenores das fachadas, nos rostos escondidos atrás das janelas e em tudo aquilo que pareça relevante ao meu olhar. Está calor e aproveito a tarde para descansar, arrumar tudo para manhã e pensar naquilo que foram os últimos 50 dias. 





quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Veneza à vista

O condutor do autocarro é meio avariado do capacete, por isso a viagem é passada entre guinadas ora para a esquerda, ora para a direita, travagens bruscas e uma velocidade alucinante pelas estradas do litoral croata. Mais uma noite normal, portanto. A meio da noite, numa cidade que não consigo identificar, uma paragem de 15 minutos. Vou à única loja que ali se encontra aberta e compro um chocolate, enquanto vou conversando com o proprietário e dando umas gargalhadas ocasionais. Quando me volto para certificar se o autocarro ainda está no mesmo sítio vejo que este já se encontra a deixar o estacionamento. Corro o mais rápido que consigo e dou um salto lá para dentro. Umas horas depois começa a amanhecer. Paramos nesse preciso momento, na fronteira que fica situada numa zona de montanha. O cenário de todas as outras fronteiras do mundo repete-se: um polícia entra dentro do autocarro e confirma o passaporte de todos os passageiros. Há uma passageira que parece ter alguma irregularidade no dela, por isso são mais 20 minutos em que ficamos parados. Não demora muito tempo até atingirmos finalmente o destino - Trieste. São 7 da manhã, não se vê praticamente ninguém na rua. Logo ao lado fica a estação de comboios, por isso não deve ser difícil conseguir chegar a Veneza. Abro a caixa de cartão e quando estou a acabar de montar a bicicleta e respectivas bagagens chega outro autocarro. Qual não é o meu espanto ao ver que também traz dois ciclistas. O Cyril e a Cécile, franceses de Paris, estão, tal como eu, na recta final da sua viagem. Começaram em Praga e pedalaram até atingirem o ponto mais próximo de Veneza, o local onde também eles vão apanhar o avião. Com todas estas coincidências depressa percebemos que vamos ser companheiros nos próximos dois dias. Dirigimo-nos ao comboio, que parte dentro de 40 minutos em direcção a Mestre, a cidade mais próxima de Veneza e a partir daí vamos tentar arranjar um parque de campismo onde ficar. Já na estação compramos qualquer coisa para comer. A única coisa que eu vislumbro no meio de rebuçados e gomas é um coelho de chocolate com um guizo ao pescoço. Menos um coelho na vitrina. Apesar da noite mal dormida, esta companhia inesperada é um óptimo tónico para me manter bem acordado. Cheios de histórias e peripécias, vamos trocando também pontos de vista, objectivos e conselhos. Eles estão a planear uma volta ao mundo no próximo ano, já têm um site, um tema, falta só vencerem o medo de deixar tudo para trás e partirem. Têm uma ideia engraçada: pedalar com o objectivo de conhecerem o melhor que puderem a comida de cada pais por onde passarem. O site deles na internet é exemplo disso. Parece um site de culinária onde cada ingrediente serve de ponto de partida. Curiosamente uma das receitas em que andam a investir mais tempo é… feijoada!





Quando o “pica” nos aborda para nos pedir os bilhetes pergunta-me porque não tenho o bilhete para a bicicleta. “Porque não me deram bilhete para a bicicleta em Trieste”. “Não faz mal, eu posso emitir-lhe aqui esse bilhete, mas fica mais caro do que se tivesse sido na estação”. “Que remédio”, prenso eu a sorrir. À medida que nos vamos aproximando do destino são cada vez mais os passageiros que sobem para o comboio, a maioria deles turistas, provavelmente com o objectivo de irem visitar Veneza. Quando o comboio pára finalmente em Mestre fazemos trabalho de equipa para retirar rapidamente bicicletas e bagagens. Depois de termos tudo montado novamente só falta saber onde podemos encontrar um parque de campismo. No posto de turismo da estação não nos sabem dar essa informação. Decidimos começar a pedalar, perguntaremos pelo caminho. Dois minutos depois paramos em frente a uma papelaria, eu entro e pergunto pelo camping. Depois de me explicarem qual a direcção a seguir, atravessamos a cidade fluindo pelo meio do trânsito. O camping é um entre os muitos que se situam nesta área e fica perto da Auto-estrada que conduz a Veneza. O preço reflecte essa proximidade: 20€/noite por pessoa. É mais caro que em qualquer hostel onde tenha ficado durante estas últimas 7 semanas, mas não há outra alternativa. Instalamos as tendas lado a lado e depois de um almoço rápido decidimos ir até à Decathlon para arranjar novas caixas de cartão para empacotar as bikes para o avião. O Cyril e a Cécile têm mais urgência que eu, pois têm voo já depois de amanhã, eu só daqui a 3 dias. A única forma de lá chegar é de autocarro e é isso que fazemos. Planearam bem esta parte da viagem e antes de saírem de França já tinham enviado um mail para esta loja para terem um cartão reservado mais ou menos para esta data. O cartão está lá, para mim é que não há. "Só segunda de manhã” – diz-me o empregado. É arriscado mas não tenho outra alternativa, só posso esperar que corra tudo bem porque da parte da tarde tenho o voo às 17. A noite chega rapidamente e rapidamente também eu me enfio no saco-cama para recuperar o que não consegui dormir ontem no autocarro.




Os franceses vão aproveitar o dia de hoje para visitarem Veneza. Já lá estiveram também ontem à noite, mas a enchente de turistas fê-los acordarem hoje às seis e meia da manhã para tentarem ver a cidade com calma. Eu Agradeço o convite para me juntar a eles mas prefiro descansar e então amanhã de manhã fazer o mesmo – estar lá logo de manhã cedo para evitar as enchentes (ainda por cima é fim-de-semana). Depois do pequeno-almoço ainda aproveito para ver as moradas de algumas lojas de bicicletas na zona, caso na Segunda-feira a Decathlon não tenha a desejada caixa de cartão. Durante o resto do dia aproveito para ir ao supermercado comprar alguma comida e durante a tarde deambulo pelas imediações do camping e das aldeias mais próximas, pedalando ao sabor da música que vai passando no leitor. Há uma tranquilidade aconchegante, espaços público muito bem cuidados, ciclovias por todo o lado e canais onde se vêm dezenas de barcos. Encontro por acaso uma ecopista que percorre a margem norte da lagoa de Veneza, ecopista que por sua vez conduz ao parque de lazer da cidade de Mestre. A vista é lindíssima, com campos de cultivo áreas de sapal e sempre com a cidade dos canais em pano de fundo. Ao final da tarde encontro-me novamente com os meus amigos franceses. Adoraram a visita a Veneza, mas só até às 10 da manhã, hora a que começaram a chegar hordas de turistas. Aproveitamos os últimos raios de sol para fazer um teste importante… como transportar as caixas de cartão do camping até ao aeroporto. A hipótese do autocarro está excluída, nenhum motorista irá deixar entrar um volume destes no seu veículo. Pensamos noutra estratégia: dobrar o cartão e colocá-lo amarrado à mochila. Depois de duas ou três tentativas o Cyril consegue finalmente pedalar com esta espécie de foguete montado na sua mochila. Rimo-nos com esta situação e passamos o final o início da noite na conversa até nos despedirmos com um “Até um dia”, porque amanhã já não nos iremos encontrar porque eles tê, de sair do camping por volta das 7 da manhã. 




terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A tentar sair de Split

Uma das vantagens dos hostels é poder deixar toda a bagagem na recepção, durante o dia da chegada ou partida, aproveitando para visitar o que apetecer sem peso às costas. Eu não sou diferente e faço o mesmo. Tenho uma prioridade para esta manhã: encontrar um cartão para empacotar a bicicleta, logo mais à noite. Ontem procurei algumas lojas de bicicletas na net e na primeira à qual me dirijo sou bem recebido e respondem-me que sim, que têm vários cartões que me podem dar de graça (Sim! Há lojas a cobrar por isto). Pergunto se há inconveniente de passar por lá novamente ao final da tarde, porque agora não tenho onde deixar o cartão. “No problem” – responde-me um dos funcionários. Descansado com o facto de já ter esta tarefa arrumada e com o dia todo pela frente monto-me em cima da bike de novo (a melhor forma que conheço de conhecer uma cidade), olho para o mapa que me deram no hostel e vou até à “atracção” que fica mais próxima da loja: o estádio do Hajduk Split. Gosto do futebol enquanto desporto apaixonante, muito por causa da imprevisibilidade (cada vez mais esbatida) ao qual está associado, ou seja, o desporto pelo desporto, sem manhas e jogos de bastidores, mas isso é uma realidade cada vez mais distante. Fiquei impressionado pela quantidade de edifícios pintados com o símbolo do clube ao longo dos 250 quilómetros de estrada que separam a cidade da fronteira com Montenegro, por isso quero ir tentar perceber o porquê desta loucura. O estádio tem uma localização brutal, numa encosta suave com vista para o mar e à primeira vista parece uma concha com abertura para o céu. Aproximo-me para ver se a equipa principal está a treinar ou para tentar ver como é o estádio por dentro. Estou com azar, a equipa está na para jogar a 2ª mão de uma das pré-eliminatórias da Liga Europa. Não desisto e pergunto numa lavagem de automóveis situada debaixo das bancadas se há alguma forma de conseguir ver o estádio por dentro. Indicam-me a entrada principal, onde toda a administração do clube está situada. À entrada, um funcionário quase a dormir numa salinha pequena interpela-me. Faço-me despercebido e pergunto se há possibilidade de tirar uma foto ao estádio por dentro. “Claro que sim! São 3€” – diz o homem enquanto tira um bilhete para mim. Normalmente quando estou em grandes cidades, costumo escolher criteriosamente um museu para visitar. Mas nesta viagem estou um bocado escaldado. Em Sófia paguei cerca de 10€ para visitar o museu de Arqueologia, que tinha peças excepcionais, mas que no fim não era mais do que um depósito, sem qualquer explicação da história do país. Depois em Skopje o museu de história era gratuito, mas estava fechado porque estavam a preparar uma exposição que iriam inaugurar dentro de dois dias. Com as expectativas tão baixas nestas coisas dos museus não me custa nada despender de 3€ para visitar um estádio. Uma rapariga simpática faz-me uma visita guiada rápida pela sala dos troféus, das personalidades e, por fim, pelo interior do estádio. No meio de alguns factos e curiosidades salta-me à vista um pormenor curioso… os camarotes ficam “pendurados” na parte inferior da cobertura do estádio e para se chegar a eles tem de se atravessar um passadiço de metal a vários metros de altura dos assentos dos adeptos, situado mais abaixo.






O resto do dia é passado a vaguear pelas ruas do centro histórico, à procura de pormenores interessantes por entre a massa de turistas e à espera do final da tarde para ir buscar a caixa de cartão à loja de bicicletas. Quando chega finalmente esse momento os empregados (que já não são os que lá se encontravam de manhã) dizem que já colocaram todas a caixas no lixo. “Então mas tinham-me dito que guardavam uma para mim!”. Provavelmente devem-se ter esquecido. Ao ver a minha cara de pânico apontam-me o caixote do outro lado da rua – “Podes tentar ver se ainda ali estão”, dizem-me. Sinto um alívio enorme quando vejo que as caixas se encontram ainda ao lado do depósito do lixo. Agarro numa, coloco-a em cima da bicicleta e vou até ao hostel buscar o resto da bagagem. Agora é rezar para que o condutor não embirre com todo este volume de bagagem. Já na estação de autocarros, com centenas de pessoas a vaguearem de um lado para o outro, desmonto os pedais, tiro a roda da frente, viro o volante e coloco a bike dentro da caixa juntamente com mais algumas coisas da bagagem. Agora é esperar pelas 21:30. Entretanto vou delineando uma estratégia para abordar o condutor sem que este comece aos gritos comigo, caso esteja maldisposto. Penso que o autocarro vai chegar à plataforma algum tempo antes da partida mas engano-me… chega com 45 minutos de atraso, quase cheio, e com um condutor e o ajudante a espumarem de raiva pelo atraso. “Tou lixado!”. Um rapaz que por ali anda oferece ajuda para me ajudar com as bagagens e com o cartão enorme. Ali numa fracção de segundos conta-me que está desempregado e pergunta-se com tantos milhões de turistas no país como é possível as pessoas continuarem a tentar sobreviver. “Government and corruption”, diz-me. Tento descansá-lo com um “It’s the same in my country, man”. Deve querer umas moedas em troca da ajuda. Entretanto gera-se uma confusão enorme, entre pessoas a sair do autocarro e a recolher bagagem e outras a quererem colocar a bagagem e embarcarem. Com a maior rapidez que consigo enfio tudo na bagageira com a ajuda do rapaz e despedimo-nos ambos com um “Good luck”. O olhar sincero e humilde do rapaz faz-me ter raiva de mim mesmo por ter pensado que poderia querer dinheiro em troca da ajuda. Enfio-me dentro do autocarro com a maior rapidez que consigo, mas o sentimento de conquista dura apenas uns segundos. Um dos motoristas irrompe autocarro adentro a gritar para que todos os que colocaram bagagem na parte de baixo saiam. Tento desculpar-me dizendo que só segui as indicações que me deram. O homem não quer saber nada disso e mete toda a bagagem, minha e dos restantes passageiros, no chão. “Têm de pagar uma taxa por cada bagagem que transportarem no porão”. Meio em desespero digo que sim, desde que me deixem levar a bicicleta. O motorista que está a cobrar o valor das bagagens pergunta-me o que tenho ali. Digo que é uma bicicleta. Pede-me para abrir a caixa. Rapidamente rasgo um pedaço do cartão para ele verificar. “Ok! No problem. You have to pay 7€”. Quero lá saber dos 7€ e do facto de muito provavelmente irem para o bolso do cobrador (pois não passam recibo), quero é ir neste autocarro. Pago, sento-me finalmente e coloco uma música calma para me embalar neste hotel ambulante onde vou hoje passar a noite.





sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Até Split

Tenho 6 dias para chegar a Veneza, de onde vou apanhar o avião para Lisboa no próximo dia 12. Vai ser impossível lá chegar de bicicleta, por isso vou procurar por uma ligação de autocarro ou comboio até Itália. O melhor local para o fazer é Split e fica a cerca de dois dias de pedalada daqui. Quero lá chegar cedo depois de amanhã para me instalar num hostel e procurar opções de transporte para Itália no dia seguinte. À falta de melhor tenho sempre a opção de tentar apanhar uma boleia de alguém com espaço para me transportar a mim e à bicicleta. Assim hoje vou passar o dia em cima da bicicleta, para tentar chegar o mais próximo de Split que conseguir. As praias pelas quais vou passando são uma tentação mas prefiro deixar para o final do dia, depois de encontrar um local onde ficar, para um possível mergulho. Uns minutos depois de deixar o parque de campismo, viro para uma baía que se assemelha a um anfiteatro e alberga 2 aldeias. Uma delas parece-me, ao longe, ser merecedora de uma visita pois possuí um casario de calcário que trepa a encosta. A zona é realmente bonita, mas as inúmeras pensões e hotéis, mais os milhares de pessoas que se encontram a desfrutar do sol ao longo da praia rapidamente me empurram para voltar à estrada principal. Mas até lá ainda tenho de empurrar a bicicleta, literalmente, porque a inclinação é tanta que é maior a força da gravidade do que das minhas pernas. Este é o trecho de costa mais bonito de todos os que atravessei durante esta viagem e esta beleza só termina (para mim) quando chego à principal cidade da região – Makarska. A partir daqui a costa será diferente, mais humanizada e menos selvagem. Em Makarska vou pela primeira vez nesta viagem aos correios enviar dois postais.  A tarde irá ser difícil, com uma subida não muito inclinada mas extensa. No entanto a vista compensa tudo! Pelo meio ainda me cruzo com outro ciclista croata que está a fazer a costa de norte para sul e me confessa que tem um sonho: o de ir um dia até Portugal de bicicleta. Já ao final da tarde, após encontrar um pequeno parque de campismo gerido por um casal de idosos muito simpático, ainda aproveito para dar um mergulho, talvez pela última vez na viagem, nas águas quentes e transparentes do Adriático. 






A partir do parque de campismo, Split fica a cerca de 40 km de distância por uma estrada praticamente plana. Aproveito por isso as primeiras horas do dia para me fazer ao caminho, não sem antes dar conta que uma das tendas que está no camping pertence a um casal que anda a viajar numa moto clássica com um atrelado original. À medida que me vou aproximado da segunda maior cidade croata, os aglomerados de casas e pessoas intensificam-se, o trânsito é caótico e as placas de alojamento surgem casa sim, casa sim. Esta é a maior recordação que irei levar da Croácia: a palavra “sobe” (quarto) e um país que parece estar para aluguer, tal é a quantidade com oferta de alojamento à beira da estrada. Já perto de Split passam por mim duas ciclistas, também a viajar. Encontro-as mais à frente paradas a comerem qualquer coisa. Para também para uma última barra de cereais antes de entrar na cidade. São americanas e estão também na recta final da sua viagem… amanhã apanharão o avião de regresso ao outro lado do atlântico. Seguimos juntos ainda alguns quilómetros, mas a pedalada delas é muito superior à minha e na via rápida à entrada de Split acabam por desaparecer no horizonte. Estou agora numa via de acesso com duas faixas de cada lado, sem berma para a bicicleta e com um trânsito infernal. Fico mais descansado quando, por fim, vejo uma placa a indicar “Center”. Tenho de procurar uma sombra, o sol está a escaldar, não há uma ponta de vento e o check in no hostel onde vou ficar hoje só pode ser feito mais ao final da tarde. Umas palmeiras na baixa da cidade são o local mais procurado pelos turistas para se esconderem deste calor e eu também não sou diferente, assim que a sombra de uma delas fica livre, encosto a bicicleta a um banco e sento-me na relva a observar o movimento de pessoas e dos barcos que chegam e partem do cais que fica mesmo em frente. A certa altura oiço uma língua que me é familiar: 3 portugueses conversam animadamente enquanto passeiam pelo local. Ainda penso em meter conversa, mas a velocidade deles é maior a andar é maior que a minha a levantar-me e acabo por ficar sentado. Daí a uma hora vislumbro-os novamente a virem na minha direcção e interpelo-os. São do Porto (mesmo que me quisessem enganar era impossível, o sotaque não deixa) e estão no início de uma viagem de cerca de 15 dias pelos Balcãs. Pensam em alugar um carro e aproveito que tenho o portátil aberto á procura de uma rede de internet para lhes dizer que, se gostam de montanhas, têm de ir a Montenegro, ao Durmitor. Ficam impressionados com a beleza que as fotos mostram e dizem que talvez dêem lá um salto. 




Está na hora de fazer o check in no hostel, que fica mesmo no centro histórico de Split. Foi o mais barato que encontrei e mesmo assim é um balúrdio para o meu orçamento. Pelas informações da internet consegui apurar que é um espaço novo que foi reabilitado, um “design hostel” – o que quer que isso signifique. Habituado durante este último mês e meio a fazer coisas tão rudimentares como preparar refeições, montar e desmontar tenda e alforges, um quarto com código para entrar e para se ter acesso ao cacifo faz-me sentir como se estivesse dentro de uma nave. As camas do dormitório são encaixadas dentro da parede dão um aspecto ainda mais original ao local. Se calhar a ideia da nave até nem era assim tão descabida. Aproveito mais uma vez a luz do final de tarde para deambular pela zona histórica, aquela que faz mesmo valer a pena uma visita a Split, principalmente pelos restos que o palácio do imperador romano Dioclesiano mandou erigir em 293, quando começou a ponderar a sua retirada da política. A localização não foi escolhida ao acaso, já que não era muito longe daqui que se situava a cidade onde tinha nascido. O palácio propriamente dito era constituído por uma muralha de forma quadrada, dentro da qual se situavam os edifícios importantes, tais como o mausoléu, as termas e os edifícios residenciais. A particularidade do local está em como as sucessivas ocupações conseguiram sempre manter vestígios das suas antecedentes e esta zona da cidade é hoje um salto na história, literalmente, de edifico para edifico. Sentado na escadaria que dá para a praça onde hoje se situa a basílica que substituiu posteriormente o mausoléu, penso na importância que a luz está a ter nesta viagem, pois todos os momentos mais marcantes têm sido vividos em torno de alturas do dia em que a luz ganha contornos mágicos… Antes de regressar ao hostel ainda vou ter de ir ao terminal dos autocarros, que fica mesmo em frente à saída dos ferries e na traseira da linha de comboio. Pergunto por bilhetes para Itália, para Veneza… “Para Veneza não temos autocarros! Só para Trieste”. “Pode ser”, digo eu! Trieste fica logo após a fronteira croata, a cerca de 160 km de Veneza. Tentarei arranjar outro transporte até à cidade dos canais a partir daí. Entretanto lembro-me de um “pormenor” importante… “Então e há inconveniente de transportar comigo uma bicicleta”. A senhora faz o seu ar mais desprezível que consegue e diz “Não podemos assumir essa responsabilidade. Vai ter que falar com o condutor na altura do embarque!”. Pondero por uns segundos. São quase 40€ a viagem de autocarro, se me é negada a entrada perco esse dinheiro e a hipótese de chegar a Itália num transporte público directamente daqui. Arrisco. “Um bilhete por favor”, digo finalmente. O autocarro parte às 21:30 do dia seguinte e chega a Trieste no dia seguinte pela manhã. Vou ter de tentar arranjar uma caixa de cartão para colocar a bicicleta e rezar para que o motorista esteja bem-disposto. 




quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

De volta à Croácia

Depois de uma noite bem dormida e de um pequeno-almoço reforçado estou pronto para “atacar” novamente a estrada em cima da bicicleta. Depois dos dias de descanso acontece quase sempre o mesmo: habituados durante alguns dias ao relaxamento, os músculos contrariam por vezes a vontade enorme de voltar a pedalar. Mas como o que nos comanda é a nossa cabeça e os nossos sonhos, não ligo à preguiça dos músculos e enfrento a primeira subida do dia logo à saída de Mostar que me fará subir um par de centenas de metros em poucos quilómetros. A paisagem é agreste: vegetação rasteira, a maioria já seca, e calcário, sempre, por todo o lado. O bafo quente que se fazia na cidade vai desaparecendo à medida que vou subindo, montanha acima. Fico espantado com tão pouco movimento na estrada, de carros e pessoas. Já sei… hoje é Domingo! Preciosismos para um viajante… Começo a pensar que se calhar não é muito bom dia para ir a Kravice e às cascatas azul-turquesa que tornam a pequena aldeia tão famosa. Mas depois também penso que não há problema, passo por lá na mesma porque me fica a caminho e o máximo que me pode acontecer é gostar e acabar por passar por lá a noite. Pelo caminho começo a ver placas com a imagem da Virgem Maria, de ofertas de alojamento, restaurantes, etc. Todas elas têm um denominador comum: Medugorje. Quando chego ao cruzamento que assinala a vila a 3 km de distância, não hesito e viro à esquerda para investigar do que se trata. Ao chegar à entrada da vila começo rapidamente a aperceber-me onde estou… Medugorje é o local onde estão a ocorrer as mais recentes aparições da Virgem Maria. Desde 1991, com uma frequência diária durante alguns meses, passando depois a mensal e anual nos tempos que se seguiram. A igreja católica encontra-se ainda a estudar estas aparições, no sentido de verificar a sua veracidade, mas isso não afasta os crentes e a vila está transformada num bazar gigante, com lojas de souvenirs espalhadas por todo o lado, onde circulam milhares de pessoas que desçam de autocarros que parecem não acabar. Procuro informações no posto de turismo próximo do santuário acerca do caminho mais curto até às cascatas, que ficam a pouco mais de 15 km daqui, mas está fechado para almoço. Num pequeno jardim encontro uma sombra e almoço enquanto observo uma violinista que deve estar a rodar um filme, tal é o aparato de câmaras e dispositivos de som à sua volta. Não me apetece ficar aqui mais uma hora à espera do funcionário do turismo e meto-me de novo na bicicleta em direcção à estrada principal. Está um calor intenso e vou ter de parar no próximo local com água. Calha ser uma estação de serviço. Calha também ter uma rede de internet desbloqueada e aproveito para ver mais algumas hipóteses para o final da tarde, caso não me interesse muito pelas cascatas, que ficam a 15 minutos daqui.




O local onde se situam é um pequeno vale situado num planalto e ninguém de perfeito juízo diz que ali, entre um manto de árvores e arbustos que resistem como podem às temperaturas, possa estar um sítio tão belo, mas também tão barulhento e cheio de pessoas. Imagino isto no Outono, sem ninguém, com a paisagem com tons laranja… só imagino porque agora mesmo estão ali centenas de pessoas que se distribuem como podem pelas margens, pela água e por qualquer canto onde exista uma sombra. Volto a pegar na bicicleta e desapareço em direcção à fronteira com a Croácia, que fica a cerca de 20 km do ponto onde me encontro. Pelo caminho atravesso vilas e aldeias embaladas na pacatez de um final de Domingo, vejo cortejos de casamentos e algumas pessoas que aproveitam as últimas horas de um sol maravilhoso. A Fronteira é a primeira que atravesso em que tenho de segurar a bicicleta entre as pernas enquanto mostro o passaporte ao agente sentado no interior da cabine, pois fica numa subida íngreme. Vou fazer um esforço para tentar chegar à costa ainda hoje, mas rapidamente percebo que vai ser impossível. Daqui a uma hora vai estar de noite e a estrada é uma montanha russa de altos e baixos constantes. Quando já tenho alguns km em solo Croata chego a um planalto anichado entre montanhas que contrasta com tudo o resto: terrenos de cultivo e árvores de fruto distribuídos geometricamente contrastam com as elevações circundantes agrestes e selvagens. Há um passo de montanha a pouca distância daqui, já o consigo vislumbrar ao longe. Estou cansado mas cerro os dentes, repito para mim mesmo palavras de motivação que me ajudam a combater o cansaço e a passar aquele ponto, porque sei que depois será sempre a descer. Na primeira aldeia dessa descida paro ao lado de um senhor já com alguma idade que traz legumes acabados de apanhar para perguntar por um sítio para montar a tenda. Diz-me que parques de campismo ali não existem (raios, no mapa que tenho estava um assinalado mesmo aqui!), mas rapidamente se monta na sua bicicleta e pede para que o siga. Pelo caminho as pessoas da aldeia vão saudando o senhor à sua passagem e imagino que perguntem de onde me conhece e onde me leva… eu também não sei. Cinco minutos depois estamos à beira de um lago rodeado de juncos e de uma pequena zona relvada. O homem faz um movimento que abarca toda a zona da relva e diz-me por gestos que posso ali ficar descansado. Há um silêncio ensurdecedor, uma calma inexplicável. Algumas casas debruçam-se sobre o lago e ao longe crianças deliciam-se com o último banho do dia.




O dia volta a começar cedo e ao longe consigo já vislumbrar o mar. Encosto no primeiro local que vejo para me abastecer com água. Tenho azar, é um restaurante de beira de estrada e leva-me quase 2€ por uma garrafa de água. Digo para mim mesmo que vou deixar de lado os “politicamente correctos” e que na próxima situação do género vou fazer o mesmo que tenho feito noutros locais: ir directamente à casa de banho para encher os bidões da bicicleta com água da torneira. Está um dia brutal, com uma luz lindíssima e uma temperatura convidativa a mergulhos na água que fica logo do lado esquerdo da estrada. Passada cerca uma hora em cima da bicicleta, a estrada vai serpenteando pela base das montanhas que terminam abruptamente nas águas cristalinas do Adriático. Depois de uma curva à esquerda vejo um carro parado e apercebo-me de uma pequena praia escondida entre os pinheiros. Encosto a bicicleta e vou investigar. Nem acredito! Uma pequena praia de seixos que parece quase desaparecer à maré cheia, a julgar pela marcas deixadas pela água, rodeada de pinheiros que se dobram por cima da água e conferem ao local um aspecto de esplanada natural, encontra-se praticamente deserta. Volto ao local onde deixei a bicicleta, e desço com ela pelo trilho que conduz à praia, amarro-a a um pinheiro, tiro comida, uma toalha e uns calções de banho dos alforges e desço até perto da água. Para quem passa de carro, umas dezenas de metros mais acima, este é um local que passa completamente despercebido, talvez por isso só se encontrem 5 pessoas neste espaço. São 9h30 e a julgar pela cara de quem está a tentar tomar o primeiro banho da manhã, a temperatura não deve ser muito convidativa. “Mas não era  suposto a água da costa croata ser quente”? – penso.  Faço como vejo fazer e abordo a entrada no mar com cuidado, mas só para descobrir o quão ridículo estou a ser. A temperatura da água está a uma temperatura entre 21 e os 23 graus. Esta gente deve estar habituada a água ainda mais quente. Eu não, que nasci no oeste português, habituado ao gelo das temperaturas provocadas pelas nortadas de verão. Para mim isto está sopa! Sorrio com esta situação enquanto mergulho com os olhos abertos para sentir toda a beleza do mar que me envolve. Deixo-me ficar nesta rotina banho-toalha-banho-toalha até às 4 da tarde, altura em volto a pegar na bicicleta para fazer alguns km até ao parque de campismo onde passarei a noite.